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O robot de cozinha de nove funções está a substituir a verdadeira cozinha

Panela elétrica a vapor em bancada de cozinha com mãos e caderno aberto ao lado.

Na primeira vez que o vi, a caixa era maior do que o meu micro-ondas. Um elegante «robot de cozinha inteligente» em preto mate, exposto na prateleira e a prometer nove funções num só aparelho: fritar sem óleo, assar, cozinhar a vapor, saltear, cozinhar lentamente, cozinhar sob pressão, cozer no forno, desidratar e reaquecer. Uma pequena nave espacial para a bancada, a sussurrar: «Nunca mais vais cozinhar a sério.»

Uma semana depois, a minha amiga Emma enviou-me uma fotografia da mesma máquina na ilha da cozinha. Ao lado, a sua velha frigideira de ferro fundido parecia abandonada, como uma trabalhadora já reformada.

A revolução das nove funções tinha-se instalado discretamente. E algo mais antigo, mais lento e mais humano começava a sair pela porta das traseiras.

De gadget milagroso a ocupação silenciosa da cozinha

Basta percorrer qualquer rede social para encontrar este aparelho tudo-em-um de nove funções por todo o lado. As receitas resumem-se a: «Deite tudo, carregue em Iniciar e afaste-se.» «Frango assado» perfeitamente dourado em 18 minutos. Brownies na mesma cuba onde ontem cozinhou caril.

É fácil perceber o fascínio. Sem frigideiras gordurosas, sem vigiar o fogão, sem esperar que o forno aqueça. Apenas um cubo brilhante a prometer salvar os jantares durante a semana. A proposta é tentadora: não substitui apenas a aerofritadeira, substitui a cozinha inteira.

Há uns meses, vi um casal jovem, num pequeno apartamento na cidade, a desembalar o deles como se fosse um novo animal de estimação. O rapaz explicou, entre o orgulho e algum embaraço: «Na verdade, não temos forno… isto vai fazer tudo.» Na primeira semana, estavam eufóricos. Batatas fritas congeladas, asas de frango, salmão teriyaki, pão de banana. Tudo preparado no mesmo tambor.

À quarta semana, as compras tinham mudado sem alarido. Menos legumes frescos, mais nuggets «prontos para a aerofritadeira». Carnes pré-marinadas em embalagens a vácuo. Molhos em bisnagas. As prateleiras deles pareciam o corredor de uma loja de conveniência, só que mais caro.

Aí reside o génio perverso deste gadget. Não acelera apenas a confeção: altera aquilo que compramos e a forma como pensamos nos alimentos. Quando a pergunta habitual passa a ser «O que posso atirar para ali e esquecer?», vamos abandonando aos poucos o descascar, o cortar e o provar. Afastamo-nos de receitas que exigem uma frigideira para alourar, uma panela para apurar ou um tabuleiro para ganhar crosta lentamente no forno.

Deixa de se aprender novas técnicas porque a máquina já «sabe» o que fazer. A aerofritadeira levou-nos, em tempos, a experimentar ingredientes verdadeiros. Esta nova caixa nove-em-um empurra-nos para comida já optimizada para um botão predefinido.

Como usar o robot de cozinha sem deixar que ele destrua a verdadeira cozinha

É possível conviver com este aparelho sem entregar a alma da sua cozinha. Encare-o como um assistente, e não como o chef. Isso implica decidir, antes sequer de carregar num botão, que parte do processo quer manter nas suas mãos.

Recorra à pressão ou ao vapor para feijão, cereais ou cortes de carne mais rijos, que realmente beneficiam de um cozimento longo e lento condensado em menos tempo. Depois, termine-os numa frigideira ou no forno. Deixe que a caixa de nove funções trate da parte aborrecida. Fique com a parte aromática, manual, aquela em que se percebe que «agora sabe mesmo bem».

A armadilha é evidente: assim que descobre que pode preparar o jantar e esquecê-lo, começa a querer esquecer tudo o resto. Todos conhecemos aquele momento em que estamos cansados e cortar uma cebola parece uma decisão de vida.

É então que o gadget deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma muleta. Nessas noites, faça ainda assim um pequeno gesto de cozinha. Corte um dente de alho para juntar à panela. Espalhe ervas frescas sobre o que sair do aparelho. Uma vez por semana, aqueça as sobras numa frigideira, só para se lembrar de como é controlar o calor.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas, se conseguir recuperar três jantares por semana ao robô, as suas capacidades e os seus sentidos mantêm-se despertos.

«Desde que comprámos o multicooker, os meus adolescentes acham que a comida aparece depois de um sinal sonoro», contou-me uma pessoa que cozinha em casa, em Manchester, primeiro a rir e depois a fazer uma pausa. «A parte assustadora é que deixaram de perguntar como se faz seja o que for.»

  • Mantenha pelo menos uma “noite analógica”
    Uma vez por semana, cozinhe sem programas predefinidos. Uma frigideira, uma panela ou apenas o forno. Mesmo que faça só legumes assados e ovos, isso reajusta os seus instintos.
  • Use o gadget como parceiro de preparação, não como protagonista
    Ao domingo, deixe-o cozinhar feijão, caldo ou cereais de base. Depois, ao longo da semana, aqueça, tempere e monte refeições a sério a partir desses elementos.
  • Resista à invasão dos congelados
    Se comprar batatas fritas congeladas e frango panado «para a aerofritadeira», é assim que vai acabar por comer. Abasteça o frigorífico para o cozinheiro que quer ser, não para o cozinheiro que o gadget pressupõe que é.
  • Proteja uma ferramenta antiga de que goste
    Uma frigideira de ferro fundido, um tabuleiro de forno gasto, uma colher de pau. Use-a regularmente. Esse objecto torna-se a ligação ao tipo de cozinha que nenhum ecrã consegue substituir.
  • Ensine uma receita verdadeira por cada “truque”
    Se ensinar os seus filhos ou a pessoa com quem vive a usar o gadget, mostre-lhes também como preparar o mesmo prato, uma vez, no fogão ou no forno. Dois caminhos, uma refeição.

O custo silencioso da conveniência no sabor, na memória e na identidade

O problema não é existir um gadget de nove funções. O problema é aquilo que desaparece quando deixamos de reparar no que ele substitui lentamente. O cheiro das cebolas a ganhar um pouco demais na manteiga porque desviou o olhar por um segundo. A conversa que acontece enquanto alguém mexe o que está ao lume e outra pessoa põe a mesa. As piadas recorrentes da família sobre «o forno da avó, que aquecia demais».

Nada disto vem com temporizador. Não é possível programá-lo num visor digital.

Ponto-chave Pormenor Valor para o leitor
Os gadgets moldam hábitos O robot de cozinha de nove funções orienta-nos para programas predefinidos e alimentos processados Ajuda a perceber por que motivo a lista de compras e a forma de cozinhar estão a mudar de modo subtil
Use-o como ferramenta, não como substituto Combine as funções de pressão e vapor com um acabamento na frigideira ou no forno Permite poupar tempo sem perder sabor, técnica ou controlo
Proteja os rituais da cozinha verdadeira Mantenha uma «noite analógica» e uma ferramenta tradicional favorita em uso Preserva a sua identidade enquanto cozinheiro, e não apenas como operador de uma máquina

Perguntas frequentes:

  • Pergunta 1 Este novo gadget de nove funções é realmente pior do que uma aerofritadeira?
  • Pergunta 2 Posso continuar a ser um bom cozinheiro se o usar várias vezes por semana?
  • Pergunta 3 Que tipos de receitas sofrem mais quando são adaptadas a um multicooker?
  • Pergunta 4 Como posso deixar de depender de programas predefinidos para tudo?
  • Pergunta 5 Há alguma forma de envolver as crianças para que aprendam a cozinhar a sério, e não apenas a carregar em botões?

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