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Portugal estuda E-Tinto e E-Branco como combustível feito a partir de vinho

Homem numa vinha abastece o carro com uvas e vinho num posto de combustível rural ao pôr do sol.

A proposta ainda não recebeu confirmação oficial, porém várias fontes ligadas aos setores da energia e da agricultura garantem que o plano entrou já numa etapa inicial de contactos com diversas adegas nacionais, com o objetivo de medir a sua disponibilidade e a capacidade de adaptação necessária para produzir combustível.

As mesmas fontes acrescentam que o projeto está a ser articulado entre o Ministério da Agricultura e Mar e o Ministério do Ambiente e Ação Climática, embora exista a intenção de o transferir para a tutela direta do Ministério das Infraestruturas, que assumirá a execução operacional da estratégia.

O objetivo? Independência energética

A meta estratégica é inequívoca: tornar Portugal energeticamente mais autónomo, apostando em recursos endógenos. Num país com uma tradição secular ligada ao vinho, o aproveitamento de excedentes vínicos e de subprodutos da vinha aparece como uma solução pouco óbvia, mas considerada tecnicamente possível.

O contexto em que este plano surge é particularmente delicado para os mercados de energia. O agravamento do conflito no Irão e a instabilidade no Médio Oriente voltaram a puxar os preços do petróleo para cima, com impacto direto no custo dos combustíveis na Europa e, por arrasto, em Portugal.

Do vinho ao depósito

Do ponto de vista técnico, o plano assenta na produção de bioetanol, um combustível já adotado em vários mercados internacionais. A particularidade, neste caso, está na origem da matéria-prima: em vez de milho ou cana-de-açúcar, Portugal recorreria à uva.

O ponto de partida não é estranho ao setor vinícola, uma vez que a fermentação alcoólica é um processo comum. O que mudaria seria a adaptação das etapas seguintes - destilação e purificação - para chegar a um combustível que cumpra as especificações exigidas pela indústria automóvel.

E-Tinto e E-Branco: os novos combustíveis nacionais

Um dos aspetos mais inovadores da proposta passa por criar categorias distintas de combustível, ajustadas não só à origem da matéria-prima, como também ao tipo de motorização.

De acordo com fontes técnicas, estão a ser consideradas duas classificações principais, com designações assumidamente nacionais: E-Tinto e E-Branco (E-Vermelho e E-Branco para os mercados internacionais).

O E-Tinto seria direcionado para motores diesel. A justificação técnica aponta para a maior concentração de compostos fenólicos, taninos e matéria orgânica associada às uvas tintas. No decurso da conversão e da refinação, estes elementos poderão ajudar a obter um combustível com maior densidade energética e melhores propriedades lubrificantes - fatores considerados essenciais em motores de ignição por compressão.

Já o E-Branco seria pensado para motores a gasolina. Aqui, a menor carga de compostos estruturais típica das uvas brancas permite produzir um bioetanol mais leve e mais puro, com uma combustão mais homogénea e controlada. Trata-se de um perfil mais indicado para motores de ignição por faísca, em que a estabilidade da combustão é determinante para o desempenho e para as emissões.

Manuel Bobine tinha razão

Para alguns, a hipótese nem sequer é surpreendente. É o caso de Manuel Bobine, o visionário português e inventor do primeiro motor a vinho tinto do mundo, cujo protótipo foi mostrado há alguns anos, em exclusivo, na Razão Automóvel.

Na altura, defendia que o vinho poderia ser usado diretamente como combustível, dispensando processos complexos de refinação. A tese foi recebida com ceticismo, mas este novo cenário poderá, agora, lançar o motor para a liga dos campeões da indústria.

Contactado pela Razão Automóvel, Manuel Bobine não conseguiu esconder o que sentia: “Eu sempre disse que era o futuro, ninguém me levou a sério e isso deixa-me magoado com o meu país.”, afirmou, reagindo ao cenário em estudo. À luz deste enquadramento, há quem interprete a sua visão como uma antecipação improvável do momento atual.

Se a iniciativa avançar, entre tradição e inovação, o vinho poderá estar prestes a assumir uma nova função na economia portuguesa. A decisão será tomada hoje, até às 23h59, do dia 1 de abril de 2026.

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