A maioria das pessoas sabe de cor a mensagem do “5 por dia”. Comer cinco porções de fruta e hortícolas por dia e, mais tarde, o corpo agradece.
Na prática, porém, chegar a essa meta é difícil para muita gente. No Reino Unido, apenas cerca de 17% dos adultos conseguem cumpri-la; a maioria fica mais perto de três porções diárias.
As razões são previsíveis: os produtos frescos podem ser caros e os hortícolas estragam-se depressa.
Além disso, cozinhar exige tempo, e nem toda a gente tem vontade de chegar do trabalho e entusiasmar-se com um prato de couve.
É por isso que, há anos, os cientistas tentam responder a uma pergunta muito concreta: um pequeno copo de sumo de laranja pode contar como uma das porções do “5 por dia”?
Um estudo recente da Universidade de Newcastle indica que, possivelmente, sim.
Os países não concordam sobre o sumo
O modo como o sumo de fruta é encarado varia bastante de país para país. No Reino Unido, um copo pequeno de 150 ml de sumo de fruta puro conta como uma porção de fruta e hortícolas.
Noutros locais, o sumo é tratado quase como uma bebida açucarada - e a discussão costuma concentrar-se no açúcar.
Quando a fruta é transformada em sumo, os açúcares ficam libertos da estrutura do fruto. Os especialistas em saúde chamam-lhes “açúcares livres”, que são avaliados de forma diferente dos açúcares naturalmente “presos” na fruta inteira.
Por causa disto, há quem defenda que o sumo não é melhor do que refrigerantes. Outros lembram que o sumo continua a fornecer vitaminas e nutrientes que as bebidas gaseificadas não têm.
Para esclarecer o tema, os investigadores decidiram medir o que acontece, na realidade, quando as pessoas passam a incluir sumo na alimentação.
A testar os potenciais benefícios do sumo
A equipa trabalhou com 42 adultos que consumiam muito pouca fruta e hortícolas - normalmente duas porções por dia ou menos.
Durante quatro semanas, os participantes foram distribuídos por três grupos.
Um grupo manteve os hábitos alimentares de sempre. Outro tentou chegar às cinco porções diárias recorrendo apenas a fruta e hortícolas inteiros.
O terceiro grupo também procurou atingir cinco porções, mas com uma diferença: uma das porções podia vir de sumo de fruta ou de batidos.
Para reduzir barreiras, os investigadores deram vales de supermercado para ajudar nos custos. Além disso, forneceram receitas simples e sugestões de compras para tornar a alimentação saudável mais fácil de pôr em prática.
Mais participantes conseguiram cumprir o “5 por dia”
No final do estudo, o padrão foi evidente.
Em média, o grupo que recorreu a fruta e hortícolas inteiros estava a consumir quase nove porções por dia.
O grupo que incluiu sumo chegou a cerca de seis e meia porções diárias. Já o grupo de controlo quase não alterou o consumo.
Todos os participantes do grupo de alimentos inteiros atingiram a meta do “5 por dia”. No grupo do sumo, quase 80% também a alcançou.
O sumo não substituiu a fruta
O dado mais relevante foi este: beber sumo não levou as pessoas a deixar de comer fruta “a sério”. No total, a ingestão de fruta e hortícolas aumentou.
A Dra. Courtney Neal conduziu o estudo na Universidade de Newcastle e está agora na Universidade de Liverpool.
“Os resultados do nosso ensaio mostraram que, quando pessoas com baixo consumo de fruta e hortícolas receberam apoio financeiro e educativo direcionado para ultrapassar barreiras comuns a comer 5 por dia, conseguiram fazer alterações significativas na sua alimentação”, afirmou a Dra. Neal.
“Verificámos que soluções simples e custo-efetivas, como beber diariamente um pequeno copo de sumo de fruta 100% ou um batido, podem ajudar as pessoas a atingir o 5 por dia, com potenciais benefícios para o bem-estar mental.”
Os hortícolas continuaram a ser pouco populares
Houve um aspeto que praticamente não mudou: a ingestão de hortícolas. A maioria dos participantes aumentou a fruta com facilidade, mas para muitas pessoas os hortícolas continuaram a ser um obstáculo.
Não é difícil perceber porquê. Comer uma maçã é rápido e simples; preparar hortícolas, muitas vezes, dá mais trabalho.
Segundo os investigadores, futuras campanhas de saúde poderão ter de abordar os hortícolas de forma mais específica, em vez de os juntar sempre à fruta.
E quanto ao açúcar?
É aqui que surge a principal preocupação para muita gente.
Sim, o grupo do sumo consumiu mais açúcar do que o grupo que comeu apenas fruta inteira. No entanto, os investigadores observaram um ponto essencial.
Mesmo com esse aumento, as análises ao sangue não mostraram alterações prejudiciais ao fim de quatro semanas. Colesterol, glicemia e marcadores de inflamação mantiveram-se dentro do normal.
O estudo revelou ainda um detalhe curioso: os participantes deviam beber apenas 150 ml de sumo por dia, mas a maioria serviu quase o dobro sem se aperceber.
Ao que parece, as pessoas não são particularmente boas a estimar porções de bebidas.
A fibra também aumentou
É comum pensar-se que o sumo “tira lugar” a alimentos saudáveis. Mas não foi isso que se verificou.
Ao longo do ensaio, ambos os grupos aumentaram a ingestão de fibra - incluindo o grupo que bebia sumo.
Em vez de substituir a fruta por bebidas, o grupo do sumo acabou por comer mais fruta no total. Esse resultado apanhou os investigadores de surpresa.
Aumentar a fruta melhorou o humor
O estudo identificou ainda um efeito inesperado.
No final do período de intervenção, o grupo do sumo relatou pontuações mais baixas de depressão. O grupo da fruta inteira apresentou melhorias semelhantes.
Os cientistas continuam a investigar por que motivo a fruta poderá contribuir para o bem-estar mental, mas apontam possíveis explicações como nutrientes, antioxidantes e compostos vegetais.
É necessária mais investigação
“O facto de os consumidores de sumo de fruta terem apresentado pontuações de depressão reduzidas é promissor e merece exploração adicional, sobretudo em indivíduos com fraco bem-estar mental”, afirmou o Dr. Oliver Shannon, autor sénior do estudo.
“Este resultado reforça estudos que relatam melhorias no fluxo sanguíneo cerebral e na função cognitiva após o consumo de sumos cítricos.”
“Alterações alimentares simples, como aumentar a ingestão de fruta - incluindo através de um copo de sumo diário - podem ter um papel no apoio ao bem-estar mental.”
Os investigadores sublinham que se tratou de um estudo pequeno; por isso, são necessários mais trabalhos antes de tirar conclusões robustas.
O sumo não é o mesmo que refrigerante
O estudo também chama a atenção para uma diferença que muitas vezes é ignorada: o sumo de fruta fornece vitaminas, potássio e nutrientes de origem vegetal. Os refrigerantes não.
Mesmo quando ambos têm açúcar, não são equivalentes do ponto de vista nutricional.
Isto não significa que se deva beber grandes quantidades de sumo todos os dias. Ainda assim, os resultados sugerem que um pequeno copo pode integrar uma alimentação saudável sem efeitos negativos óbvios.
Porções pequenas podem ser uma ajuda
Os autores evitam exagerar a importância dos resultados. O estudo teve apenas quatro semanas e incluiu um número reduzido de participantes.
Mesmo assim, deixa uma mensagem relevante: para quem tem dificuldade em comer fruta e hortícolas suficientes, um pequeno copo de sumo de fruta puro pode ser uma forma de se aproximar da meta do “5 por dia”.
Por vezes, os conselhos de alimentação saudável tornam-se tão rígidos que parecem impossíveis de cumprir no dia a dia. Este trabalho sugere que soluções práticas podem ser mais eficazes do que exigir perfeição.
E, para muitas pessoas, começar a manhã com um copo de sumo de laranja pode ser um passo simples na direção certa.
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