O consumo anual de carne de animais selvagens na África Central aumentou acentuadamente desde 2000 e atingiu cerca de 1,1 milhões de toneladas métricas em 2022, segundo uma nova análise.
Este crescimento do consumo de carne de animais selvagens intensifica a pressão sobre as populações de fauna e aumenta o risco de as comunidades rurais perderem uma fonte essencial de proteína.
Um apetite mais vasto
Os registos recolhidos junto de agregados familiares em toda a Bacia do Congo revelam uma subida contínua do consumo de carne de animais selvagens ao longo do tempo.
A Dra. Mattia Bessone, do Centro para a Investigação Florestal Internacional e Agroflorestal Mundial (CIFOR), acompanhou a expansão da procura em contextos rurais e urbanos.
Embora as comunidades rurais continuem a depender mais desta carne, é a procura crescente nas cidades que explica grande parte do aumento total.
Esta realidade evidencia uma tensão central: a protecção da fauna dependerá de compreender como o consumo se distribui entre diferentes grupos populacionais antes de poderem ser implementadas soluções mais amplas.
Consumo de carne de animais selvagens entre países
Os dados incluíram 12 453 agregados familiares e mais de 163 000 respostas a inquéritos, obtidas em 252 locais de sete países, abrangendo aldeias, vilas e cidades.
Os investigadores reuniram inquéritos antigos e recentes para estimar a frequência com que os agregados consumiam animais selvagens e as quantidades de carne ingeridas.
Apesar de os métodos dos inquéritos variarem, a análise concluiu que essas diferenças não explicavam o padrão de consumo observado entre os vários locais.
Como extensas áreas da região ainda não foram estudadas, estas estimativas devem sobretudo servir para identificar zonas prioritárias para investigação no terreno, e não para definir a situação de todas as localidades.
Porque dependem as aldeias da carne de animais selvagens
As aldeias remotas revelaram a maior dependência diária, pois os animais selvagens continuam a estar próximos, acessíveis e integrados nos hábitos locais.
O acesso à floresta altera directamente as refeições: quando os caçadores encontram animais, a carne chega mais vezes às panelas.
Nas zonas rurais, a carne de animais selvagens fornecia cerca de 20% da proteína diária recomendada, face a 13% nas vilas e 6% nas cidades.
Retirar esta fonte alimentar demasiado depressa pode fazer com que as políticas de conservação agravem a fome, em vez de reduzirem a pressão sobre a fauna.
A procura urbana exerce a maior pressão
A procura urbana representa a maior pressão à escala regional porque muitas pessoas conseguem comprar carne de caça, mesmo que cada uma consuma uma quantidade inferior.
Por adulto equivalente, o consumo médio diário de carne de animais selvagens foi de cerca de 57 g nas aldeias, 37 g nas vilas e 17 g nas cidades.
As populações numerosas transformam compras ocasionais numa extracção intensa, sobretudo quando os vendedores transportam carne das florestas para os mercados.
Por isso, a procura nas cidades não pode ser tratada como uma questão secundária, nem se pode atribuir a responsabilidade apenas às dietas rurais, especialmente quando estas compras estão associadas a celebrações.
Animais da floresta sob pressão
A fauna sofre as consequências quando a caça remove animais a um ritmo superior à sua capacidade de reprodução.
Os mamíferos de tamanho médio e grande enfrentam a pressão mais intensa, uma vez que fornecem mais carne e tendem a recuperar lentamente.
Em 2022, o consumo ultrapassou metade de uma anterior estimativa regional de biomassa existente - o peso vivo dos mamíferos florestais.
Sem limites locais nas proximidades das aldeias, os animais de que os caçadores mais necessitam poderão tornar-se os mais difíceis de encontrar.
Opções de proteína para as famílias
Em muitas zonas remotas, a carne de criação a preços acessíveis continua a ser escassa, levando os agregados a depender das florestas e do peixe de água doce.
A produção pecuária pode fracassar quando doenças, assistência veterinária deficiente ou alimento limitado para os animais tornam os rebanhos dispendiosos.
As famílias podem manter cabras ou galinhas como poupança de emergência, enquanto alguns compradores urbanos desconfiam da carne importada.
Estas circunstâncias tornam perigosas as proibições simples, pois podem penalizar as famílias sem lhes garantirem refeições mais seguras.
A cultura mantém a procura
O Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal (GBF) - um acordo internacional para proteger a natureza - defende a utilização sustentável das espécies selvagens.
Estas regras só funcionam quando as comunidades participam na decisão sobre as espécies que podem ser caçadas e os períodos em que isso é permitido, em vez de lhes serem impostas proibições definidas à distância.
“"O consumo de carne de animais selvagens é uma parte importante do tecido socioeconómico da África Central", afirmou Bessone.”
Como a cultura pode manter a procura, a aplicação coerciva das regras, por si só, deixará de fora grande parte do mercado.
A necessidade de alternativas melhores
O investimento na alimentação pode reduzir a pressão quando aves, peixe e outros alimentos produzidos em explorações se tornam seguros, económicos, familiares e disponíveis de forma regular.
Um Programa Internacional de Gestão Sustentável da Vida Selvagem - um projecto que trabalha com governos e comunidades - testa alternativas em 16 países.
A criação de novos empregos também é relevante, porque caçadores, comerciantes e vendedores dependem da economia da carne de animais selvagens.
É necessário que alternativas melhores cheguem às mesmas vilas e aldeias antes do endurecimento das restrições; caso contrário, as famílias perdem rendimentos enquanto os animais continuam a desaparecer.
Limitações do estudo
Mesmo a base de dados mais robusta abrangeu apenas uma pequena parte das populações e paisagens da África Central, incluindo florestas e savanas.
As grandes áreas sem inquéritos obrigaram a equipa a recorrer a modelos preditivos - estimativas informáticas que preenchem lacunas com base em padrões conhecidos.
Os mapas produzidos pelos modelos podem assinalar zonas críticas, mas os inquéritos no terreno têm de confirmar se esses locais enfrentam realmente a pressão mais elevada.
Esta incerteza deve tornar a intervenção mais precisa, e não travá-la, pois esperar por números perfeitos favorece as perdas contínuas nas vilas em crescimento.
A carne de animais selvagens está no centro da alimentação, do rendimento, da cultura e da conservação, tornando urgente a gestão sustentável da vida selvagem.
As políticas que reduzem a procura urbana, reforçam os sistemas alimentares locais e protegem o acesso rural à alimentação oferecem um caminho mais claro para pessoas e animais, desde que as comunidades participem na sua concepção.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário