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Mercado do Bolhão: cinco bancas e quatro lojas vão a leilão no Porto

Cliente consultando um vendedor num mercado coberto com frutas e legumes frescos à venda.

O Mercado do Bolhão, símbolo maior do Porto, voltou a abrir portas em 2022 depois de uma reabilitação e recebe, em média, 20 mil pessoas por dia. Esta terça-feira à tarde, na Biblioteca Almeida Garrett, vão a leilão cinco bancas no interior e quatro lojas no exterior.

Dentro do mercado, o aço à vista das cinco bancas atualmente desocupadas quase se perde no meio da explosão de cores das frutas, dos legumes e das plantas. Já na fachada poente, ao longo da Rua de Sá da Bandeira, as lojas encostadas umas às outras - já perto do entroncamento com a Rua Formosa - destacam-se precisamente por estarem vazias desde a reabertura, em setembro de 2022. A Câmara do Porto promove agora a hasta pública e espera que, a partir de amanhã, todos estes espaços passem a ter novos inquilinos.

Se os nove lugares forem efetivamente ocupados, serão nove os comerciantes a juntar-se a quem tem contribuído para a atração de milhões de visitantes ao mercado. A autarquia aponta uma média diária de 20 mil pessoas e contabiliza 22,6 milhões de entradas desde a reabertura; só no primeiro semestre deste ano, refere, passaram 2,7 milhões.

Razões da saída

A hasta pública está marcada para as 15.30 horas, na Biblioteca Almeida Garrett. As lojas destinam-se a negócios alimentares sem confeção e, no caso das bancas, cada uma terá de retomar a venda dos mesmos produtos frescos que ali eram comercializados antes.

É o caso de uma banca de plantas junto da septuagenária Maria Teixeira, que ficou livre porque a comerciante, hoje com 85 anos, "tinha problemas de coração e o médico disse-lhe que não podia trabalhar". Além desta saída, uma vendedora morreu e outra abandonou o mercado por motivos de saúde; um quarto comerciante desistiu do negócio da fruta; e a mítica Bininha reformou-se aos 75 anos, depois de mais de seis décadas ao balcão, deixando sem ocupação a conhecida banca de peixe.

Maria, tratada por Maria Plantas, tem 76 anos e ainda não tinha 20 quando começou a vender no Bolhão. "É muito ano; vim para cá uma menina e estou aqui velha", diz, a sorrir. "Sou antiga, sou mesmo histórica, e por isso tenho de ter uma renda antiga", acrescenta, voltando a sorrir.

Com um contrato que já soma várias décadas, paga cerca de seis euros por metro quadrado, valor que a autarquia aplica aos comerciantes históricos, em contraste com os 67 euros/m2 que hoje se praticam nos arrendamentos atribuídos por concurso. No caso das lojas, o metro quadrado custa atualmente cerca de 50 euros, quando nos negócios antigos é de 6,80 euros - diferença que pode ajudar a explicar por que motivo as duas lojas disponíveis com maiores dimensões continuam sem ocupação desde a reabertura; numa delas funcionava o Café Turista.

Maria reconhece que, nos dias de hoje, talvez "não tomasse conta de uma banca" de plantas. "Ui, isto agora é um balúrdio, é preciso pensar muito bem e fazer contas à vida se a gente quiser levar o barco direitinho. Só se fosse [uma banca] de comes e bebes, porque para isso há dinheiro; e é o que eles [turistas] querem", comenta Maria Plantas.

Não é, por isso, o turismo - que, como sublinha, "não compram plantas" - que lhe dá fôlego ao negócio. Quem a sustenta são os clientes "antigos", que se mantêm fiéis. "É isso que me mantém aqui, porque são eles próprios a pedir para eu não ir embora", agradece, lembrando o tempo em que "havia matadouro" no recinto e em que "só havia o supermercado Villares [em frente], e se as pessoas precisassem de frescos era no Mercado do Bolhão".

De copo na mão

Com mais de meio século à frente de uma banca de legumes, Maria Pinto admite que nunca pensou ver, um dia, pessoas de copo de vinho na mão a "desfilar" pelo mercado. Encolhe os ombros e diz que o andamento do negócio acompanha a maré de estrangeiros. "Se não fosse o turismo... É que não mora ninguém na cidade, e o que falta é uma cidade de moradores. Tinha uma freguesa que morava na Rua de Santo Ildefonso e foi para Gondomar. Agora, já não vem cá", lamenta a vendedora, na banca Maria do Álvaro.

Também considera que "está mal o estacionamento", aponta, voltada para a Rua Formosa, onde os clientes não conseguem encostar os carros para carregar as compras - um problema que se torna mais pesado para os mais velhos, que são "a maior parte" dos clientes portugueses. "Já tive de ajudar a meter os sacos num carro, com os outros atrás a buzinar. Uma freguesa veio aqui duas vezes e nunca mais voltou", queixa-se, defendendo que "o mercado devia ter estacionamento".

Na Rua de Sá da Bandeira, os irmãos Jacinto e Maria José Mendonça, ligados há mais de 60 anos à Relojoaria Mendonça, discordam do destino alimentar para as lojas. "É pena estarem fechadas há tantos anos, e é pena que não tenham sido alugadas para comércio tradicional, a casas históricas como a Casa Rocha, que foi uma pena ter fechado, ou a Casa dos Linhos. O edifício ficava muito melhor do que com os tascos, que é só esplanadas e copos", defendem. "Estão a transformar a cidade numa cidade de tascos, e era altura de a Câmara repensar a situação e ter outro cuidado", avisam.

Lojas divididas

Na centenária Casa Hortícola, António Ferreira, herdeiro do negócio do lendário António Ferreira de Sousa - que foi o mais velho comerciante do Bolhão e morreu em 2024 - recorda que já existe um grande número de estabelecimentos do setor alimentar na envolvente, onde antes havia uma diversidade comercial muito maior. Ainda assim, diz querer sobretudo ver ocupados os espaços de Sá da Bandeira. "É importante que o mercado esteja todo ocupado", sublinha, porque "as lojas desocupadas acabam por criar uma dinâmica de abandono".

Duas das lojas disponíveis tinham tido "concursos ficaram desertos". Por isso, a empresa municipal GO Porto, que gere o Bolhão, decidiu "dividi-las em quatro unidades comerciais", para que ficassem "mais ajustadas às necessidades e perfil dos potenciais operadores". Para além dessas, existe ainda outra loja que vendia rissóis e que tem estado encerrada, mas a autarquia esclarece que o respetivo arrendamento continua "em vigor".

Bininha reformou-se em janeiro

Entre as bancas que ficaram vagas no início deste ano, no coração do mercado - ícone da cidade - está uma das mais emblemáticas: a peixaria da carismática Albina Ferreira, a Bininha, figura incontornável do comércio tradicional da Baixa e filha do Bolhão. Reformou-se aos 75 anos, depois de seis décadas e meia dedicadas à venda de peixe, atividade que herdou da família.

A banca pertencia à madrinha, Alvira Augusta, e à tia, Laura da Silva, que eram sócias. Após a morte de Alvira, a mãe de Bininha, Olívia dos Santos, passa a trabalhar como funcionária de Laura, e a menina cresce entre as rotinas do Bolhão. Permanece ali a ajudar a mãe e a tia na venda de peixe e, quando Laura adoece, Bininha fica responsável pela banca - até ao último dia de janeiro passado.

O presidente da Câmara, Pedro Duarte, deslocou-se ao local para homenagear a "grande mulher, cuja vida se confunde com o Mercado do Bolhão". "A Bininha é o Bolhão e o Bolhão é a Bininha. Que o seu amor ao Porto inspire todos", disse-lhe. Visivelmente emocionada, ela pediu-lhe: "Sou tripeira de gema; enquanto lá estiver, olhe pelo povo do Porto".

Concurso para limpeza e manutenção

A GO Porto, empresa municipal responsável pela gestão do Bolhão, abriu um concurso público com publicidade internacional para contratar serviços de apoio à operação do mercado.

O procedimento estabelece um preço-base global de 5,7 milhões de euros para os próximos três anos de operação, e as propostas podem ser entregues até 7 de agosto.

A Câmara justifica que "o atual contrato de prestação de serviços de apoio à operação do Mercado do Bolhão termina no último trimestre de 2026 e, por isso, está agora a ser lançado um novo concurso com o objetivo de garantir o regular funcionamento, limpeza, manutenção e segurança do emblemático edifício da cidade".

Com cerca de sete mil metros quadrados, quatro pisos, 79 bancas, 10 restaurantes e 38 lojas, a forte afluência diária do Bolhão obriga, acrescenta o município, a uma equipa externa permanente, a trabalhar em regime diurno e noturno.

"A contratação divide-se em quatro lotes, sendo destinados 1,9 milhões aos serviços de limpeza, desinfestação e gestão de resíduos, 1,5 milhões a serviços de vigilância e segurança, 1,4 milhões aos serviços de manutenção e 805 mil euros dedicados a serviços específicos como fiscalização, balcão de informação, produção e distribuição de gelo", detalha a Câmara do Porto.

Detalhes

Preços e prazos
Nas bancas, o valor-base de licitação mais baixo ronda os 200 euros; nas lojas, fica à volta de dois mil euros. Em ambos os casos, o montante depende da dimensão e das características do espaço. As licenças de ocupação das bancas têm a duração de 20 anos. Já nas lojas exteriores, o contrato de arrendamento é de seis anos.

Impugnação
A Associação do Comércio Tradicional Bolha de Água anunciou uma denúncia e um pedido de impugnação da hasta pública. Sustenta que a Câmara está a promover "a transformação de um património classificado - reabilitado com 50 milhões de euros de dinheiros públicos - numa praça de alimentação massificada".

Prémios

Reabilitação
A reabilitação do Mercado do Bolhão, projeto do arquiteto Nuno Valentim, foi distinguida com vários prémios, entre os quais os Internacional Architecture Awards 2024, na categoria Restauração/Renovação, e o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana 2023, além de outros galardões.

Espaço público
O Mercado do Bolhão integra a lista de candidatos ao Prémio Europeu de Espaço Público Urbano, cujo vencedor será anunciado a 15 de outubro.

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