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Dieta vegana altera marcas químicas no ADN em 4 semanas

Pessoa segura tigela com salada saudável sobre mesa com frutos, tubos de ensaio, caderno e telemóvel.

A alimentação não serve apenas para fornecer energia. Cada refeição traz também sinais químicos que as células conseguem detetar ao longo de poucas semanas.

Esses sinais não alteram o código genético. Em vez disso, podem modificar marcas químicas à volta do ADN, influenciando a facilidade com que as células recorrem a determinados genes.

Um novo estudo concluiu que um mês com uma dieta vegana alterou marcas químicas no ADN associadas à inflamação, ao metabolismo energético, ao crescimento celular e ao envelhecimento.

Estes resultados não provam que uma dieta vegana previna doenças ou reverta o envelhecimento. Mostram, sim, que o organismo consegue reagir a uma mudança alimentar marcante em apenas algumas semanas.

A equipa reuniu investigadores da University of California San Diego (UC San Diego). Participaram também cientistas da University of Freiburg, na Alemanha.

Mudanças na dieta e atividade dos genes

O trabalho centrou-se na metilação do ADN, um processo que acrescenta marcas químicas chamadas grupos metilo ao ADN.

Quando existem mais destas marcas perto de um gene, esse gene pode tornar-se menos ativo; quando há menos, pode tornar-se mais acessível e mais fácil de “usar” pelas células.

“Os nossos genes não são o nosso destino”, afirmou o Dr. Jerome Mertens, coautor sénior do estudo. “O achado notável não é simplesmente que uma dieta superou outra.

“É que o epigenoma respondeu de forma mensurável em apenas quatro semanas, mostrando que a nossa biologia é muito mais dinâmica e responsiva às escolhas do dia a dia do que muitas vezes assumimos.”

Duas dietas revelam mudanças rápidas

A análise baseou-se em amostras de sangue de 48 adultos saudáveis que, habitualmente, consumiam produtos de origem animal. Antes de qualquer intervenção, todos seguiram durante uma semana a mesma dieta mista, para que a equipa tivesse um ponto de partida comum.

Depois, os participantes foram distribuídos aleatoriamente por dois grupos. Vinte e quatro cumpriram uma dieta vegana durante um mês, enquanto os outros 24 seguiram uma dieta rica em carne.

Ambos os planos forneceram quantidades semelhantes de energia, pelo que o peso se manteve globalmente estável. Este desenho experimental ajudou a distinguir o impacto da composição dos alimentos dos efeitos de uma redução calórica ou de perda de peso.

A equipa avaliou mais de 812,000 locais no ADN, comparando os resultados antes e depois das dietas.

O padrão natural do ADN de cada pessoa foi o fator com maior influência, mas, ainda assim, as dietas vegana e rica em carne produziram algumas diferenças detetáveis.

Células do sangue mudam com a alimentação

O sangue inclui vários tipos de células imunitárias, e cada tipo deixa uma assinatura própria no ADN.

Com base nessas assinaturas, a equipa estimou a proporção de cada tipo de célula imunitária. Em seguida, comparou essas estimativas com contagens reais de células sanguíneas recolhidas no ensaio original.

Ao fim de um mês, o grupo vegano pareceu apresentar menos neutrófilos, que podem aumentar a inflamação. Também pareceu ter mais células T CD4, que ajudam a regular as respostas imunitárias.

“Essa concordância disse-nos que não estávamos apenas a ver alterações num ecrã de computador – estávamos a detetar mudanças biológicas reais e com significado”, explicou Lukas Karbacher, o primeiro autor.

Vias genéticas reagem de forma distinta

A equipa analisou depois as marcas químicas (padrões de metilação) junto das regiões do ADN que controlam se os genes ficam ligados ou desligados.

No grupo vegano, surgiram mais marcas químicas perto de genes envolvidos na sinalização mTOR e Hippo. Estes dois sistemas contribuem para regular a forma como as células crescem.

Outras alterações sugeriram que o organismo estava a recorrer menos à gordura como fonte de energia. A dieta vegana também influenciou genes relacionados com o controlo da insulina, a reparação do ADN, o stress celular, a morte celular natural e o crescimento celular.

Algumas das vias afetadas também surgem na biologia do cancro, mas o ensaio não mediu tumores nem acompanhou diagnósticos futuros. Estes padrões moleculares não permitem concluir que a dieta tenha tratado ou prevenido cancro.

O padrão geral indica que a composição dos alimentos pode influenciar conjuntos de genes que atuam em conjunto. Não identifica um ingrediente específico como responsável, nem mostra se estas mudanças se mantêm ao longo do tempo.

Relógios de envelhecimento e resposta a dietas veganas

Os investigadores recorreram ainda a ferramentas especiais chamadas relógios epigenéticos. Estes instrumentos analisam marcas químicas no ADN para estimar como o corpo poderá estar a envelhecer.

Como diferentes relógios captam componentes diferentes do envelhecimento, nem sempre produzem o mesmo resultado.

O PhenoAge estima o envelhecimento com base na saúde e no risco de doença. No grupo vegano, a estimativa desceu cerca de 1.7 anos, mas aumentou 0.56 anos no grupo com dieta rica em carne.

O GrimAge moveu-se na mesma direção geral, com uma diminuição de 0.54 anos durante a dieta vegana. Ainda assim, a diferença entre dietas não atingiu significância estatística.

O relógio Blood&Skin, pensado sobretudo para acompanhar a idade cronológica, mostrou o padrão oposto. A estimativa subiu 0.61 anos no grupo vegano e desceu 0.61 anos no grupo com dieta rica em carne.

Relógios diferentes captam biologia diferente

“Estes resultados reforçam a ideia de que nem todas as medidas de envelhecimento biológico captam a mesma biologia”, disse o Dr. Mertens.

“Os relógios associados ao risco de doença e à saúde global apontaram de forma consistente na mesma direção, sugerindo que as alterações alimentares estavam a influenciar vias ligadas à saúde, e não apenas a passagem do tempo.”

Uma alteração na estimativa de um relógio não significa que alguém tenha, literalmente, ganho ou perdido anos de vida. Estes relógios registaram mudanças de metilação de curto prazo que podem refletir o metabolismo, a atividade imunitária ou respostas temporárias.

Os resultados precisam de mais testes

O estudo teve uma dimensão reduzida. Incluiu apenas 48 adultos saudáveis e durou só um mês.

Numa amostra maior, ou em adultos mais velhos e pessoas com problemas de saúde de longa duração, os resultados poderão ser diferentes.

As diferenças de metilação foram modestas. Após a correção para o grande número de comparações, nenhum local individual se manteve estatisticamente significativo, pelo que as conclusões sobre vias devem ser vistas como preliminares.

O plano vegano não foi uma dieta estritamente baseada em alimentos integrais. Alguns participantes consumiram frutos secos adicionais, óleos ou barras de granola para manter 1,800 to 2,000 calorias por dia.

O ensaio avaliou marcadores moleculares e não resultados de saúde no futuro. Serão necessários estudos mais longos para perceber se as alterações persistem e se conduzem a menos inflamação, menor risco de doença ou um envelhecimento mais saudável.

As escolhas alimentares influenciam a biologia

“O nosso estudo soma-se à evidência crescente de que a nutrição pode moldar a biologia ao nível molecular”, referiu o Dr. Max Storz, coautor sénior.

“O próximo passo é perceber se estas alterações epigenéticas se mantêm ao longo do tempo e se se traduzem em melhorias relevantes na saúde a longo prazo. Isso exigirá estudos clínicos maiores, mas estes resultados fornecem uma base importante.”

O Dr. Storz sublinhou ainda que os resultados foram impulsionados pela composição da dieta, e não por uma redução da ingestão calórica.

A principal conclusão não é que uma dieta vegana reverta o envelhecimento. O que estes dados mostram é que alterar o que as pessoas comem pode influenciar as células do corpo em apenas algumas semanas.

O estudo foi publicado na revista MedComm.

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