Consumir cafeína em excesso é claramente prejudicial para a saúde, e há motivos legítimos para algumas pessoas quererem eliminá-la por completo. Ainda assim, se a ideia de abdicar do seu café da manhã o desanima, não é caso para alarme.
Há bastante investigação a indicar que um consumo moderado de café está associado a vários benefícios. Para além das vantagens mais conhecidas - como o contributo para a saúde do coração - uma chávena diária também parece favorecer o cérebro e até ajudar a prevenir algumas perturbações de saúde mental.
Para começar, o café inclui diversos nutrientes essenciais úteis para o bem-estar geral. Uma chávena típica de cerca de 240 ml contém pequenas quantidades de vitaminas do complexo B - riboflavina, ácido pantoténico, tiamina e niacina - e ainda minerais como potássio, manganês e magnésio. Quando se bebem várias chávenas, estes nutrientes podem representar uma parcela relevante da ingestão diária.
Além disso, é uma bebida rica em antioxidantes. Aliás, muitas pessoas - sobretudo no Ocidente - acabam por obter mais antioxidantes através do café do que da fruta e dos legumes.
O que significa, na prática, beber café para o organismo? Um dos efeitos potencialmente mais reconhecidos é o aumento da energia e da vigilância mental, especialmente de manhã cedo ou quando surge aquela quebra a meio da tarde.
Isto acontece sobretudo devido à cafeína, um estimulante natural presente no café, que bloqueia a adenosina - um neurotransmissor inibitório no cérebro que promove o sono e reduz o estado de alerta. Como resultado, aumenta a actividade neuronal e há libertação de neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina, o que pode melhorar o humor, o tempo de reacção e o desempenho cognitivo.
Ainda assim, nem sempre é simples separar causa e efeito. Por exemplo, muitas pessoas bebem café no trabalho e também em contextos sociais; por isso, os estudos têm de distinguir o impacto da bebida do efeito do convívio e do tempo partilhado com amigos e colegas.
Doenças crónicas
A longo prazo, beber café de forma moderada pode ajudar a diminuir o risco de desenvolver várias doenças crónicas.
1. Doenças cardiovasculares
O consumo moderado de café está associado a um menor risco de doença cardíaca e de acidente vascular cerebral. Os estudos sugerem que beber uma a duas chávenas de café por dia pode reduzir o risco de insuficiência cardíaca. Além disso, tem sido observada uma ligação entre o consumo de café e um risco mais baixo de mortalidade e doença cardiovasculares. Curiosamente, dados recentes indicam que, mesmo quando existem alterações do ritmo cardíaco, o café não é prejudicial.
2. Diabetes tipo 2
O café pode melhorar a capacidade do organismo para processar a glucose, ajudando a reduzir o risco de desenvolver diabetes tipo 2. A investigação mostra que quem consome mais café tem menor probabilidade de vir a ter esta doença.
3. Doenças do fígado
O café parece contribuir para a protecção do fígado. Tanto o café normal como o descafeinado têm sido associados a níveis mais saudáveis de enzimas hepáticas, e quem bebe café apresenta um risco significativamente menor de cirrose hepática e de cancro do fígado.
4. Cancro
O consumo de café foi associado a um risco mais baixo de vários outros tipos de cancro, incluindo cancro colorrectal e cancro do útero. Uma revisão sistemática concluiu que um consumo elevado de café está ligado a um risco de cancro 18 por cento inferior.
5. Doenças neurodegenerativas
A cafeína está associada a um menor risco de desenvolver doença de Parkinson e pode ajudar algumas pessoas com a condição a gerir melhor os movimentos. Para além disso, o consumo de café pode reduzir o risco de doença de Alzheimer e de outras formas de demência.
Saúde mental
Como se os benefícios físicos não bastassem, também se observaram efeitos positivos do café na saúde mental. Os estudos sugerem que quem bebe café tem menor risco de depressão, havendo resultados que apontam para uma redução de 20 por cento no risco de desenvolver depressão.
Mais ainda: o consumo de café foi associado a um risco reduzido de suicídio. A investigação concluiu que as pessoas que bebem quatro ou mais chávenas por dia têm menos 53 por cento de probabilidade de cometer suicídio.
Longevidade
Perante tantos benefícios, não surpreende que a investigação indique que quem bebe café tende a viver mais do que quem não bebe. Um estudo de grande dimensão, com mais de 400 000 participantes, observou que o consumo de café ao longo de 12 a 13 anos esteve ligado a um risco de morte mais baixo - sendo o efeito mais forte registado com quatro a cinco chávenas por dia.
Este benefício em termos de longevidade poderá resultar do efeito acumulado das propriedades protectoras do café contra diferentes doenças.
Moderação necessária
Apesar de o café ter muitas vantagens para a saúde, é fundamental consumi-lo com moderação. Também é prudente reduzir o açúcar e as natas adicionadas, para evitar calorias desnecessárias.
A ingestão excessiva de cafeína pode provocar efeitos indesejáveis, como tremores, ansiedade e alterações do sono. Algumas pessoas, particularmente sensíveis à cafeína, podem precisar de limitar o consumo de café ou evitá-lo por completo, até porque mesmo o café descafeinado contém cafeína.
Tal como acontece com qualquer componente da alimentação, o equilíbrio é essencial. Ao compreender os possíveis benefícios e as limitações do café, cada pessoa pode tomar decisões mais informadas sobre a sua inclusão na rotina diária.
Eu, por exemplo, vou manter a minha chávena de café da manhã.
Justin Stebbing, Professor de Ciências Biomédicas, Anglia Ruskin University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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