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Sardinha volta às lotas portuguesas: 33.446 toneladas e certificação "azul"

Mulher a manusear peixe numa feira de pesca junto ao mar com barcos ao fundo e coloridas bandeirolas.

Passados cinco meses, a sardinha regressa hoje às lotas portuguesas. Em 2025, estão autorizadas 33.446 toneladas para captura (menos 2,8% do que em 2024). Em princípio, não deverá faltar peixe, mas os preços - como é habitual - tendem a subir, agora também impulsionados pela certificação "azul". A indústria conserveira assegura que compra a sardinha e já fez aumentar em 45% o preço do cabaz. Do lado das embarcações, o que veio mesmo baralhar as contas foi a subida "louca" do gasóleo, a ensombrar um ano que tudo indica poder ser "de excelência".

"Pelo que os barcos têm visto no mar, vai haver sardinha. Já temos certificação, espera-se um aumento do preço e volta a haver contratos com as conserveiras. Agora, é só esperar que o peixe tenha tamanho e gordura e, claro, gerir a quota que nunca chega. 2025 foi um bom ano. Esperamos que, este ano, seja tão bom ou melhor", explicou ao JN Agostinho Mata, o presidente da Propeixe - Cooperativa de Produtores de Peixe do Norte, que agrega 24 barcos da pesca do cerco a trabalhar em Matosinhos.

Em dezembro, o Conselho Internacional para a Exploração dos Mares (ICES) avançou, para 2026, com uma proposta de quota de quase 39 mil toneladas. Embora tenham sido revistos em baixa o recrutamento (peixes com menos de um ano) e a biomassa (sardinha com mais de um ano), após um período "muito preocupante" (2007-2015) o stock é hoje considerado "estável". Ainda assim, os pescadores defendiam, no mínimo, uma quota ao nível de 2025.

Portugal e Espanha acabaram por ponderar os dois argumentos. O despacho n.° 5288, publicado no dia 22, fixou a quota ibérica em 50.294 toneladas (-1444 toneladas do que em 2025), cabendo a Portugal 33.446 (-960 toneladas).

A expectativa é que a certificação aumente a procura, uma vez que a sardinha recupera, este ano, o selo "azul" do Marine Stewardhip Council. Portugal tinha atingido o nível máximo de reconhecimento na pesca sustentável em 2010, mas perdeu-o em 2014, quando os stocks caíram a pique. Agora, a certificação regressa e passa a abranger toda a sardinha ibérica do Atlântico.

Gestão da quota

No ano passado, depois de consumida a quota, a frota teve de parar a 3 de dezembro. Em 2025, o desfecho poderá repetir-se. Por isso, e tendo em conta que no arranque da safra a sardinha é, regra geral, mais pequena, com menos gordura e, consequentemente, menos valorizada, a estratégia passa por reservar quota para os meses em que o peixe atinge melhor qualidade e a procura empurra o preço para cima - com destaque para os santos populares.

Até 1 de junho, os limites diários de captura estão definidos em 250 cabazes (para embarcações com mais de 16 metros). A partir daí, sobem para 300. Mantém-se a proibição de pesca de sardinha aos feriados e continua a ser obrigatória a paragem de 48 horas ao fim de semana.

Em 2024, com a colaboração da indústria, o preço médio em lota fixou-se em 1,22 euros (+15% do que em 2024). Em 2025, as conserveiras voltam a assegurar a compra e a pagar mais, pelo que, para o consumidor, é já certo que o preço também vai aumentar - falta perceber em que medida.

Já a pensar nos santos

Entre os pescadores, o foco está desde já nos santos populares. Em 2025, no Norte, na véspera dos santos, o valor variou entre 50 e 150 euros por cabaz (ou entre 2,22 e 6,67 euros o quilo). Ficou longe dos "proibitivos" 440 euros de 2023, mas, segundo Agostinho Mata, foi "muito bom".

Para este ano, a expectativa é que seja, "pelo menos, tão bom!", ainda mais porque o preço do gasóleo está a pesar - e muito - nos orçamentos. Numa embarcação com 22 metros, a despesa semanal com combustível subiu de 4000 para 6500 euros em meia dúzia de meses.

Mas, como "tristezas não pagam dívidas", depois de cinco meses parados à espera deste momento, o pedido dos pescadores resume-se a "que haja sardinha e gordinha" e a ter "quota até ao final do ano".

Indústria das conservas quer "qualidade e estabilidade"

A Propeixe e a Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe (ANICP) voltaram a formalizar contratos para compra de sardinha. Com a retoma da certificação "azul", o preço acordado aumentou de 20 para 29 euros por cabaz (0,89 para 1,29 euros o quilo). As embarcações que aderirem ao acordo passam a ter garantida, diariamente, a aquisição de metade do peixe.

Para a indústria, este modelo ajuda a assegurar sardinha fresca e de qualidade ao longo de todo o ano. Num contexto de "forte concorrência internacional, instabilidade no acesso à matéria-prima e crescente pressão dos mercados para garantir padrões elevados de sustentabilidade", afirma a ANICP, esta "articulação entre pesca e indústria" contribui para valorizar a sardinha nacional e os produtos que dela resultam. "Num setor fortemente exportador, a estabilidade no abastecimento é um fator crítico para responder aos mercados" externos (mais de 70% da produção).

Um peixe decisivo para o país

Mais pescado
Em 2025, a sardinha foi, destacadamente, a espécie mais capturada em Portugal (36,3 mil toneladas). A seguir vieram a cavala (13,2 mil toneladas), o carapau (13,1), o biqueirão (9,1) e o polvo (4,6).

Vale 75% do cerco
A rainha dos santos populares representa um terço de todo o peixe capturado no continente e responde por 75% das capturas da frota da pesca de cerco.

Frota nacional
Cerco, arrasto e polivalente são as três grandes tipologias de embarcações. A frota nacional de cerco, responsável por 70% do pescado nacional, integra 167 barcos e dá emprego a mais de dois mil pescadores.

Matosinhos lidera
À boleia da sardinha, o porto de pesca de Matosinhos voltou ao 1.° lugar nas descargas de pescado, com quase 24 mil toneladas movimentadas em 2025. Já não liderava desde 2012. Seguiu-se Sesimbra (20,4) e Peniche (15,4). Aveiro e a Figueira da Foz completam os cinco primeiros.

Limite na petinga
O despacho estabelece ainda regras para a captura da chamada petinga (sardinha pequena), com o objetivo de a salvaguardar: não é permitida a captura de mais de 40 cabazes (900 quilos) por dia.


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