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Enemas de café: benefícios, riscos e o mito da desintoxicação

Prensa francesa com café, jarra metálica, copo de sumo verde, telemóvel e caderno com caneta numa bancada de cozinha.

O que têm em comum o rei Carlos e Gwyneth Paltrow? Se desistiu, aqui vai: ambos estiveram, em momentos diferentes, no centro de polémicas ligadas a lavagens intestinais com café.

Em 2004, num discurso ao Royal College of Obstetricians and Gynaecologists sobre terapias complementares e cuidados oncológicos, o então Príncipe de Gales fez comentários sobre a terapia Gerson - um programa de saúde divulgado como alternativa para tratar o cancro e que inclui enemas de café regulares como forma de “limpar” toxinas do organismo. As declarações foram interpretadas como uma validação de um método sem comprovação.

A posição do príncipe foi criticada por especialistas. Já Gwyneth Paltrow promoveu no Goop, o seu site de estilo de vida, um kit de enema de café para uso em casa - o que também levou a críticas de profissionais de saúde, que apelaram aos seguidores para “manterem o café fora do recto e dentro da chávena”.

Mesmo com este tipo de contestação, os enemas de café continuam a circular nas redes sociais como tendência de “bem-estar” e são disponibilizados em várias clínicas de saúde alternativa com o argumento de “limpar o cólon” e “desintoxicar” o corpo. Mais preocupante ainda, alguns influenciadores continuam a recomendá-los como alternativa para tratar cancro e outras doenças graves.

Porque é que uma prática tão controversa continua popular apesar da má reputação? E será que eventuais benefícios compensam os riscos?

Enemas de café: o que são e como funcionam

Um enema serve para esvaziar o intestino de matéria fecal. Em termos práticos, o procedimento costuma envolver a introdução, no recto, de uma cânula ligada a um saco com líquido, para que o conteúdo seja instilado.

Na medicina convencional, os enemas podem ser utilizados para preparar o intestino antes de uma cirurgia, em situações graves de obstipação ou, por vezes, integrados em planos de gestão intestinal - por exemplo, em pessoas com doenças inflamatórias do intestino.

Há ainda quem afirme que, antes do aparecimento de analgésicos modernos, Florence Nightingale recorreu a enemas de café para aliviar a dor de soldados durante a Guerra da Crimeia, e que médicos os usaram na Segunda Guerra Mundial.

Terapia Gerson

Apesar de, desde a época em que Nightingale cuidava de soldados feridos, a medicina e a tecnologia terem evoluído de forma significativa, os enemas de café continuam a ser promovidos como prática de saúde.

A terapia Gerson mantém-se altamente divulgada como alternativa à quimioterapia. Neste regime, os doentes seguem uma dieta vegetariana biológica muito restrita, que pode incluir até 13 copos de sumo de fruta e até cinco enemas de café por dia.

O Gerson Institute defende que os enemas aumentam a motilidade intestinal, ajudando a esvaziar os intestinos. Alega-se também que os enemas de café facilitam a eliminação de toxinas pelo fígado e pelo intestino, o que, supostamente, poderia aliviar a dor.

O café contém os compostos kahweol e cafestol, que se pensa estimularem uma enzima associada à remoção de substâncias nocivas do organismo. Essas substâncias seriam convertidas em sais biliares e eliminadas. A cafeína é apontada como capaz de estimular o fígado e dilatar os canais biliares, aumentando o fluxo de bílis e ajudando a remover toxinas.

Vários estudos indicam não existir evidência de que este regime cure o cancro, e não é apoiado por organizações oncológicas reputadas. Ainda assim, é possível que o efeito placebo contribua para que alguns doentes se sintam melhor.

Uma revisão concluiu que existem mais relatos sobre efeitos adversos de enemas de café do que provas da sua eficácia. Entre os casos descritos, algumas pessoas desenvolveram proctocolite - inflamação do recto e do cólon - e queimaduras no recto.

Autolimpeza intestinal

Como o enema pode levar à eliminação de uma grande quantidade de conteúdo intestinal, os enemas de café também podem reduzir o potássio no organismo. Isto pode provocar desequilíbrio electrolítico, desidratação, fraqueza muscular e náuseas. Em situações graves, podem surgir arritmias e problemas pulmonares.

O uso frequente e prolongado de qualquer tipo de enema pode enfraquecer a musculatura intestinal, o que se associa a obstipação e inflamação do intestino. Nalguns casos, os enemas podem perturbar o equilíbrio das bactérias benéficas do intestino, originando cólicas, diarreia e distensão abdominal, além de aumentar o risco de infecção.

Não há necessidade de enemas caseiros de qualquer tipo: o intestino é autolimpante. A digestão normal e as evacuações regulares permitem que o organismo elimine resíduos naturalmente. Para uma boa saúde digestiva, uma alimentação rica em fibra - com fruta, legumes, cereais integrais e sementes - deverá ser suficiente e pode até reduzir o risco de cancro.

As recomendações actuais sugerem pelo menos 30 g de fibra por dia. No entanto, a maioria dos adultos consome, em média, apenas 19 g diárias. Beber bastante água também é essencial para a saúde intestinal. A investigação sugere ainda que alimentos fermentados, como kimchi, kefir e kombucha, podem favorecer as bactérias benéficas do intestino e ajudar a digestão.

Beber café tem mais probabilidade de trazer benefícios para a saúde do que usar enemas de café. Estudos indicam que um consumo moderado de café está associado, por exemplo, a menor risco de doença cardíaca.

Informação de saúde nas redes sociais e apoio médico

As redes sociais podem ser úteis para aprender sobre saúde, mas é importante confirmar quem está a fornecer a informação - e se tem credenciais que sustentem o que afirma. Antes de iniciar terapias alternativas ou complementares, o mais prudente é falar com o seu médico ou especialista.

Dipa Kamdar, Professora Sénior de Prática Farmacêutica, Kingston University

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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