Cientistas descobriram que um teste de duas horas consegue despir alimentos comuns até restarem apenas as partículas de plástico escondidas no seu interior.
Este avanço aproxima a triagem rotineira de alimentos, ao transformar uma procura que demorava vários dias num procedimento que muitos laboratórios poderiam concluir no próprio dia.
Novo método de análise
Em pão, pimenta, lula e atum, a nova abordagem eliminou quase toda a matriz alimentar e deixou o plástico para trás.
Ao trabalhar com esses alimentos, Martin Šteković, da Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade de Zagreb, demonstrou que uma limpeza rápida ainda pode preservar material suficiente para identificar os plásticos.
O desempenho manteve-se consistente em alimentos com composições muito diferentes - do pão rico em amido ao peixe com maior teor de gordura - e não apenas num único tipo de amostra “fácil”.
Ainda assim, o avanço diz respeito a medir contaminação; não constitui, por agora, um retrato final de quanto plástico existe em toda a cadeia alimentar.
Porque é que os testes antigos demoram
Os protocolos tradicionais para alimentos tendem a demorar mais de um dia, porque é necessário remover gorduras, amidos e proteínas antes de começar a contagem.
Uma revisão publicada em 2020 concluiu que as amostras alimentares, em geral, apresentam níveis muito baixos de partículas, o que torna a limpeza morosa e facilmente variável entre laboratórios.
Neste trabalho, após a digestão “limpar o terreno”, a equipa recorreu à microspectroscopia Raman, um método a laser que lê o padrão molecular de um material.
A rapidez na limpeza é crucial, porque a identificação só é útil quando o material que chega ao laser está suficientemente livre de interferências para ser fiável.
Plásticos mantêm a estrutura
A maioria dos plásticos comuns testados atravessou a etapa ácida com 80 a 110% da massa recuperada e com identidades que continuaram legíveis.
Polietileno, polipropileno e o plástico utilizado em muitos revestimentos antiaderentes conservaram a sua estrutura o bastante para um reconhecimento rigoroso.
Ensaios térmicos, verificação de tamanhos e o sinal Raman apontaram na mesma direcção, sugerindo pouca degradação visível após a digestão.
Sem essa estabilidade, um método rápido não teria utilidade, porque a química destruiria exactamente as partículas que pretende detectar.
Problemas na degradação de alguns plásticos
As dificuldades surgiram com o plástico usado em muitas garrafas de bebidas e com o acrílico transparente, que resistiram menos eficazmente ao método.
A combinação de ácido e calor fragmentou o plástico das garrafas em partes mais pequenas; assim, a contagem de partículas pode aumentar mesmo quando a massa total se mantém semelhante.
No caso do acrílico transparente, as partículas também se fundiram em aglomerados maiores, preservando o peso mas baralhando a tentativa de contar peças separadas.
Para estes plásticos mais sensíveis, o procedimento mostra-se muito mais robusto para estimativas de massa do que para contagens exactas de partículas.
Contaminação do laboratório baralha as contagens
Um obstáculo adicional veio do próprio laboratório, onde plásticos “perdidos” podem infiltrar-se numa amostra antes de qualquer medição do alimento.
Execuções de controlo sem amostra - por vezes chamadas brancos procedimentais - revelaram partículas indesejadas de polietileno quando a equipa usou apenas um tipo de recipiente.
A mudança para inserções de quartzo e uma limpeza mais exigente reduziram esse ruído de fundo, ajudando a distinguir partículas reais de contaminação.
Caso contrário, os laboratórios podem gerar sinais de plástico por si mesmos, a menos que o controlo de contaminação seja implacável em todas as etapas.
Testes em alimentos reais
Para lá de misturas de teste controladas, os investigadores aplicaram também o fluxo de trabalho a ketchup, paté, chocolate, gelado e croquetes.
Essas experiências indicaram que a abordagem consegue lidar com alimentos comerciais muito distintos, sem colapsar perante gorduras, açúcares ou amidos.
Mesmo assim, o artigo não apresenta um recenseamento amplo da contaminação no supermercado, porque a validação do método foi o objectivo central.
Quem procura um quadro definitivo sobre o que chega ao prato continua a precisar de estudos maiores que apliquem este procedimento em escala.
A ingestão continua por determinar
Mesmo com ferramentas melhores, os cientistas ainda não conseguem quantificar quanto plástico uma refeição média acrescenta à ingestão diária de uma pessoa.
Alimentos diferentes retêm partículas de forma distinta, e a preparação de amostras continua a ser feita de modo inconsistente, o que torna os estudos difíceis de comparar.
Um estudo norte-americano de 2024 encontrou contaminação em 16 produtos proteicos, com os itens mais processados a apresentarem mais partículas nas comparações realizadas pelos investigadores.
Métodos de limpeza mais eficazes podem afinar essas estimativas, ao reduzir a incerteza inicial antes mesmo de a contagem começar.
Evidência em humanos
A evidência em humanos elevou a importância do tema, embora ainda diga muito menos do que alguns títulos alarmistas sugerem.
Uma revisão de 2024 identificou microplásticos em oito de 12 sistemas de órgãos e também no leite materno, fezes, urina e sémen.
Alimentos e água permanecem vias de entrada plausíveis, mas os efeitos directos na saúde humana continuam por esclarecer.
Sem contagens sólidas, o debate sobre danos cai na especulação - precisamente o que este método procura reduzir.
Foco na precisão
Antes de se interpretar este trabalho como um censo dos pratos à mesa, o seu feito principal é melhorar a medição.
“Um método mais rápido, reprodutível e universal como este é um passo importante para padronizar a análise de microplásticos em alimentos, o que é necessário para estimar a exposição real da população e desenvolver medidas de protecção da saúde”, disse Šteković.
Ainda assim, esta ambição depende de inquéritos mais amplos, de uma química mais suave para plásticos sensíveis e de uma utilização rotineira fora de laboratórios especializados.
Próximos passos na análise
Contar melhor não resolve, por si só, o problema do plástico, mas elimina uma desculpa para não medir os alimentos com rigor.
Com preparação mais rápida, filtros mais limpos e limites mais claros, os investigadores poderão finalmente comparar alimentos em condições mais equivalentes.
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