Um estudo recente detetou níveis mensuráveis de veneno em exemplares secos de falsas morquelas silvestres consumidas antes de surgir, nos Alpes Franceses, um raro agrupamento de casos fatais de ELA (ALS).
A identificação do tóxico não demonstra, por si só, que os cogumelos tenham provocado a doença, mas torna mais nítido o enigma que envolve alimentação, genética e uma toxina que alguns organismos poderão eliminar de forma mais lenta.
Apanha de cogumelos e ELA (ALS)
Os relatos clínicos e as amostras desidratadas de cogumelos recolhidas em Montchavin, uma pequena localidade de montanha no sudeste de França, acabaram por fornecer a pista mais consistente sobre o agrupamento.
Ao reconstruir esse historial, a neurologista Dra. Emmeline Lagrange, do Hospital Universitário Grenoble Alpes (CHUGA), associou refeições repetidas com cogumelos a pessoas que mais tarde foram diagnosticadas com ELA (ALS).
Vários doentes referiram ter consumido os cogumelos pelo sabor e por alegados efeitos antienvelhecimento, e alguns relataram sentir-se gravemente indispostos pouco depois.
Esse padrão fez com que o consumo das falsas morquelas deixasse de ser um pormenor irrelevante; a questão seguinte passou a ser perceber se a composição química se alinhava com a suspeita.
Contabilizar o agrupamento
Os registos mais antigos destacavam 14 diagnósticos entre 1990 e 2018, envolvendo residentes e também pessoas com segunda habitação em Montchavin.
Mais tarde, relatos públicos referiram 16 pessoas com ELA (ALS) numa aldeia com apenas algumas centenas de habitantes, o que intensificou a perceção de gravidade.
Estes agrupamentos são importantes porque a ELA (ALS) é rara; por isso, padrões locais invulgares podem revelar riscos que as médias nacionais tendem a ocultar.
Ainda assim, um agrupamento pode apontar um possível responsável, mas não consegue, por si só, ordenar todas as exposições ou identificar com certeza qual foi determinante.
Porque a ELA (ALS) é relevante
Na ELA (ALS), os neurónios motores - células nervosas que controlam os movimentos voluntários - degeneram e deixam de transmitir corretamente os sinais do cérebro e da medula espinal para os músculos.
À medida que essas células falham, pode ocorrer perda de força, alterações na fala, dificuldades em engolir e, por fim, comprometimento dos músculos da respiração, essenciais à sobrevivência.
A maioria dos casos surge sem história familiar evidente, e as alterações genéticas herdadas explicam apenas uma parte menor.
Esta incerteza dá mais valor às pistas ambientais, sobretudo quando várias pessoas partilham uma exposição antes do início dos sintomas.
Falsa morquela da neve mal identificada
A primeira investigação atribuiu o problema a Gyromitra gigas, conhecida como falsa morquela da neve, mas análises posteriores indicaram uma correspondência mais perigosa.
A identificação genética colocou as amostras francesas no grupo Gyromitra esculenta, incluindo Gyromitra venenata, um parente próximo venenoso.
A correção do nome foi relevante porque, em amostras alemãs de G. gigas, não se detetou gyromitrina, uma toxina de cogumelos que pode transformar-se num veneno neurotóxico.
Confundir a espécie poderia ter atenuado o aviso, já que os cogumelos corretamente identificados continham quantidades mensuráveis do tóxico suspeito.
Como o veneno se transforma
No organismo, a gyromitrina pode degradar-se em monometilhidrazina, um composto reativo associado à intoxicação aguda por falsas morquelas.
Esse composto pode interferir com a ativação da vitamina B6, reduzindo um sinal cerebral de efeito calmante e potenciando uma sobre-excitação nervosa perigosa.
A intoxicação aguda costuma começar com sintomas gastrointestinais e, em situações graves, pode evoluir para lesão do fígado, dos rins ou do sistema nervoso.
Já os efeitos tardios são mais difíceis de demonstrar, mas a possibilidade de dano no ADN - isto é, lesão do material genético - oferece aos investigadores um mecanismo plausível que liga a exposição a toxinas a doença persistente.
Os genes podem ter impacto
As diferenças genéticas acrescentam complexidade, porque nem todas as pessoas eliminam substâncias tóxicas à mesma velocidade.
Em testes realizados a 7 doentes, 4 apresentaram um fenótipo de acetilador lento, um padrão de desintoxicação previsto geneticamente, o que sugere uma metabolização mais lenta de determinados químicos.
Mais 1 doente ficou no grupo intermédio, enquanto 2 apresentaram resultados de metabolização rápida, o que dificulta qualquer explicação demasiado linear.
Com dados de apenas 7 pessoas, o resultado descreve um padrão de risco e não uma regra diagnóstica; por isso, os genes não permitem prever quem irá desenvolver ELA (ALS).
Cozinhar não elimina
As orientações alimentares sobre falsas morquelas continuam pouco claras, em parte porque a tradição trata alguns cogumelos tóxicos como comestíveis após manipulação cuidadosa.
A Agência Sueca da Alimentação refere que a morquela-de-pedra, nome sueco de G. esculenta, só pode ser vendida depois de fervuras repetidas com escorrimento.
Em França, a abordagem é mais restritiva e a venda é proibida, refletindo menor tolerância à incerteza da exposição.
A preparação pode reduzir parte da toxina, mas a evidência não sustenta que estes cogumelos devam ser considerados inofensivos.
A prova continua difícil
Estabelecer causalidade é particularmente complexo, porque a ELA (ALS) pode surgir anos depois de uma exposição e, muitas vezes, resulta de vários fatores de risco.
Uma localidade pequena não consegue fornecer casos suficientes para resolver a questão com a segurança estatística de um grande ensaio.
A equipa de investigação acrescentou que confirmar a correlação com os dados atuais é quase impossível.
A prudência não enfraquece o alerta; apenas mantém a suspeita separada da prova.
Cogumelos, ELA (ALS) e saúde humana
Com a espécie corrigida, os investigadores passam a ter um alvo mais definido para estudos em animais e experiências celulares.
Ao testar a gyromitrina e os seus produtos de degradação, será possível observar se os neurónios motores sofrem lesões duradouras.
O trabalho futuro terá também de comparar pessoas expostas que se mantiveram saudáveis com doentes que desenvolveram sintomas.
A comparação entre esses grupos poderá esclarecer se a dose da toxina, o número de refeições, a genética ou outros fatores locais foram os mais relevantes.
Um agrupamento raro de ELA (ALS), a identificação corrigida do cogumelo, a química da toxina e os dados genéticos apontam agora para uma exposição alimentar específica que justifica cautela séria.
Para quem apanha ou compra falsas morquelas, a lição de segurança é direta: um alimento tradicional pode implicar riscos que a confeção não remove por completo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário