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Porque o mel dos Estados Unidos continentais não pode ser certificado como orgânico pelo USDA

Apicultor examina frasco de mel segurando documento com selo "DENIED" em campo com colmeias e flores.

O mel produzido em qualquer ponto dos Estados Unidos continentais não pode ser vendido como biológico certificado. E o problema não está no mel.

As abelhas procuram alimento onde houver flores. As regras do modo de produção biológico tentam “controlar” esse comportamento impondo um amplo anel de território sem pesticidas em torno de cada colmeia.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) exige uma zona de forrageamento de cerca de 3 km (1,86 milhas) à volta da colmeia, além de uma faixa tampão mais ampla relativamente a aterros, localidades e culturas tratadas.

Somadas, estas áreas representam aproximadamente 129 km² (cerca de 50 milhas²) de terreno “limpo”.

Poucos apicultores conseguem encontrar tanta área adequada. Na prática, apenas um pequeno número de apiários no Havai é hoje produtor biológico certificado no país, o que deixa os restantes excluídos.

Uma regra de uso do solo bloqueia a certificação

Margarita López-Uribe, professora na Pennsylvania State University (Penn State), ajudou a liderar o estudo. O objectivo era perceber se a exigência relativa à terra em torno das colmeias é, de facto, indispensável.

O contexto de mercado é relevante: os consumidores procuram mel biológico, mas os produtores norte-americanos não conseguem responder a essa procura.

“Com base na investigação anterior do nosso grupo, sabemos que a apicultura biológica é muito boa para a saúde das abelhas do mel e também pode ser economicamente rentável para os apicultores”, afirmou López-Uribe.

“E, embora a procura interna de mel biológico esteja a aumentar todos os anos, os apicultores americanos não têm actualmente acesso a esse mercado em crescimento.”

Mel analisado em explorações biológicas

A equipa instalou 72 colónias em seis grandes explorações em modo de produção biológico: três em Nova Iorque e três na Pensilvânia.

“Como resultado das dificuldades em encontrar terra suficiente para cumprir este requisito, os apicultores dos EUA foram, na prática, excluídos de produzir mel biológico certificado”, disse López-Uribe.

“Queríamos saber se conseguiríamos produzir mel comparável ao mel biológico certificado pelo USDA mesmo sem cumprir os requisitos de uso do solo.”

Em média, cada exploração tinha cerca de 1 km² (aproximadamente 249 acres). Entre 56% e 93% da área num raio de cerca de 3 km (1,86 milhas) das colmeias correspondia a zonas selvagens ou pouco utilizadas.

Um ano depois de estabelecer as colónias, os investigadores analisaram o mel à procura de 96 resíduos diferentes de pesticidas.

Em seguida, compararam essas amostras com 20 marcas de mel compradas em loja, incluindo produtos biológicos certificados e convencionais.

Mais limpo do que o mel convencional

O mel das explorações apresentou níveis baixos de resíduos. Em termos de pesticidas, ficou alinhado com o mel biológico importado e abaixo do que se detectou no mel convencional.

Considerando apenas os limites de pesticidas, 98,2% das amostras das explorações cumpriam o padrão do modo biológico. Apenas uma amostra ultrapassou o limite de um sinergista chamado butóxido de piperonilo.

A diferença foi ainda mais marcada quando a equipa avaliou o total de resíduos. O mel convencional apresentou uma média de 5,95 ppb, enquanto os méis biológicos ficaram entre 0,76 e 2,19 ppb.

O próprio butóxido de piperonilo surgiu em mais de metade das amostras das explorações, tornando-se o resíduo mais frequente no mel produzido pela equipa.

Miticidas aparecem na mesma

O mel biológico certificado do Havai não foi o que ficou mais “limpo”. Num dos indicadores, apresentou resultados piores do que o mel das explorações sem certificação.

Os apicultores enfrentam um parasita minúsculo - o ácaro varroa - que se alimenta das abelhas. Muitos recorrem a miticidas sintéticos, substâncias proibidas pelas regras do modo biológico.

Quase um terço das amostras biológicas do Havai excedeu o limite de um resíduo associado ao amitraz, um desses tratamentos contra ácaros. Já o mel das explorações quase nunca ultrapassou esse limite.

Segundo López-Uribe, o verdadeiro obstáculo à produção de mel biológico nos Estados Unidos poderá estar no problema dos miticidas, e não na dimensão da área de forrageamento.

De onde podem vir os resíduos

Ainda não se sabe ao certo como estes químicos chegaram às colmeias.

“Os níveis vestigiais de miticidas encontrados nestas amostras são intrigantes, uma vez que a sua utilização não é permitida em operações de apicultura biológica certificada”, afirmou Robyn Underwood, educadora em apicultura da Penn State Extension.

“Por isso, estamos interessados em investigar vias alternativas de contaminação.”

A cera onde as abelhas constroem pode reter resíduos antigos. Além disso, as próprias abelhas podem chegar já expostas, dado que as colónias “em pacote” são frequentemente tratadas antes de serem vendidas.

Algumas amostras das explorações também continham coumafos, outro tratamento contra ácaros proibido que os apicultores nunca utilizaram. Isso mantém em aberto a origem da contaminação.

A composição do território não fez diferença

A equipa verificou ainda se o tipo de terreno nas imediações previa os níveis de resíduos em cada colmeia. À partida, mais agricultura convencional perto de um apiário poderia significar mais pesticidas no mel.

Essa relação não apareceu. Entre os seis locais, a combinação de campos agrícolas, florestas e áreas abertas não explicou nenhuma das diferenças detectadas.

Há, contudo, uma ressalva: todas as explorações já se situavam em envolventes relativamente “limpas”, pelo que o teste não conseguiria captar um efeito que pudesse ser visível numa paisagem mais intensamente urbanizada ou cultivada.

Um caminho para o mel biológico

As colmeias analisadas estavam entre 2 300 pés (cerca de 701 m) e pouco mais de 1 milha (pouco mais de 1,6 km) de explorações convencionais. As abelhas do mel costumam forragear num raio de cerca de 2 300 pés das colmeias, o que significa que a maior parte do néctar veio de áreas limpas.

Esta distância fica muito aquém da faixa tampão exigida, mas, ainda assim, o mel cumpriu o padrão biológico no que toca a pesticidas. A localização e uma gestão cuidada das colmeias poderão ter mais peso do que um enorme anel de terra protegida.

O estudo tem limitações claras. A equipa avaliou apenas seis explorações, todas em zonas ricas em habitat selvagem, pelo que uma análise mais ampla poderia oferecer um retrato mais completo.

Ainda assim, para os apicultores americanos, os resultados são animadores: produzir mel “limpo” parece estar ao alcance, se as regras passarem a focar-se mais na contaminação que efectivamente chega ao frasco.

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