Uma questão de ritual ou de preferência pessoal, dir-se-ia. Mas há mais uma variável a considerar: quando consumidas com regularidade, estas duas bebidas podem ter efeitos inversos na robustez do esqueleto feminino.
Osteoporose nas mulheres: um risco silencioso após os 50
Estima-se que cerca de uma em cada três mulheres com mais de 50 anos venha a ser afectada, em algum momento, por osteoporose - uma doença que progride de forma discreta, degradando o tecido ósseo mais depressa do que o organismo o consegue renovar. Na maioria dos casos, quem a tem não se apercebe, porque a doença não causa dor nem sintomas até que uma fractura leve ao diagnóstico.
As mulheres são mais atingidas do que os homens, sobretudo por causa da menopausa: esta fase vem acompanhada de uma redução na produção de estrogénios, o que acelera a perda de massa óssea. Já são conhecidos vários factores de risco, como défice de vitamina D ou de cálcio, sedentarismo, consumo excessivo de substâncias tóxicas (álcool ou tabaco) e excesso de sal.
De acordo com um estudo conduzido por epidemiologistas da Universidade de Flinders (Austrália), a esta lista deve juntar-se mais um hábito de vida: o consumo de café ou de chá. A conclusão resulta da análise de padrões alimentares de 9 700 mulheres norte-americanas com 65 anos ou mais, acompanhadas durante cerca de dez anos, num trabalho publicado em novembro de 2025 na revista Nutrients.
Chá ou café: o seu esqueleto prefere um dos dois
Ao longo de uma década, as participantes registaram por quatro vezes o consumo de bebidas, ao mesmo tempo que era avaliada a sua densidade mineral óssea (DMO). A DMO corresponde à quantidade de minerais (sobretudo cálcio e fósforo) presente num determinado volume de tecido ósseo.
Como foi medida a densidade mineral óssea (DMO)
Os investigadores centraram-se em duas zonas: a anca e o colo do fémur, recorrendo a uma técnica de imagem denominada absorciometria de dupla energia por raios X.
Entre as mulheres que bebiam chá de forma regular, observou-se uma DMO total da anca ligeiramente superior à das que não o consumiam (0,718 g/cm² face a 0,715 g/cm²). Num grupo pequeno, a diferença poderia parecer irrelevante, mas a dimensão da amostra torna o resultado estatisticamente difícil de contestar.
“Mesmo pequenas melhorias da densidade óssea podem traduzir-se em menos fracturas em grupos grandes”, recorda Enwu Liu, epidemiologista e autor principal do estudo. O possível efeito protector do chá é atribuído às catequinas, compostos polifenólicos que poderão estimular a actividade dos osteoblastos, as células responsáveis pela formação do osso.
Já o café, quando consumido em quantidades superiores a cinco chávenas por dia, pode estar associado a uma DMO mais baixa, embora o estudo não apresente valores explícitos para este ponto. Os autores referem que a cafeína poderá estar envolvida, ao diminuir a absorção de cálcio, promover a sua excreção urinária e, assim, contribuir para a redução das reservas minerais do organismo.
Como compreender, então, que o chá - que também contém cafeína (e não “teína”, designação popular para a mesma molécula) - pareça produzir o efeito oposto no esqueleto? A explicação mais provável aponta para as catequinas, inexistentes no café, que compensariam o impacto negativo da cafeína.
Além disso, as consequências de um consumo muito elevado de café, quando associado a álcool, parecem aumentar o risco de fractura num dos locais mais vulneráveis do esqueleto envelhecido: o colo do fémur, onde as fracturas por osteoporose tendem a ser mais incapacitantes. Do ponto de vista estatístico, as mulheres com este duplo perfil apresentaram uma DMO femoral inferior à das restantes participantes.
Uma análise nuançada ao longo do tempo
A metodologia do estudo é sólida (muitas participantes e acompanhamento prolongado), mas tem ainda assim duas limitações relevantes. A amostra era composta quase exclusivamente por mulheres brancas, o que limita a extrapolação para outras populações. Por outro lado, os consumos avaliados foram auto-reportados; é possível que algumas participantes tenham subestimado ou sobrestimado o que bebiam, criando um viés de memória difícil de evitar neste tipo de protocolo.
Os autores, aliás, mantêm uma postura prudente perante os resultados. “Os nossos resultados não significam que se deva abdicar do café ou começar a beber chá em quantidades industriais”, esclarece Liu. “Mas sugerem que um consumo moderado de chá pode ser uma forma simples de apoiar a saúde óssea, e que um consumo muito elevado de café talvez não seja o ideal, em particular para as mulheres que consomem álcool”. Não se trata, portanto, de uma injunção pessoal: basta reter esta pista de prevenção - sobretudo se já passou dos 50, gosta de café e não recusa um (ou vários) copos de vinho em boa companhia.
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