Um regime alimentar mensal de curta duração ajudou adultos com doença de Crohn a sentirem-se melhor, ao mesmo tempo que reduziu um importante indicador de inflamação intestinal.
O resultado fornece aos médicos evidência de um ensaio clínico, algo raro para uma pergunta que os doentes colocam frequentemente: se a alimentação consegue acalmar a doença, em vez de apenas evitar que a irrite.
Doença de Crohn e dietas vegetais
Num ensaio aleatorizado de três meses, 97 adultos com doença de Crohn ligeira a moderada compararam um plano alimentar vegetal de cinco dias com as suas dietas habituais.
Ao combinar pontuações de sintomas com amostras de sangue e fezes, Sidhartha R. Sinha, médico, da Universidade de Stanford, demonstrou que esta alteração mensal breve se associava tanto ao alívio como à redução da inflamação intestinal.
Em muitos doentes, o efeito tornou-se visível após apenas um ciclo e intensificou-se ao longo dos três meses, sem exigir que deixassem de comer normalmente no restante período.
Este limite é importante: a dieta pareceu ser útil como complemento para determinados doentes, não como cura nem como motivo para interromper os cuidados prescritos.
Porque é que as recomendações alimentares ficaram limitadas
Cerca de um milhão de pessoas nos Estados Unidos vivem com a doença. A inflamação pode atingir o intestino delgado, o intestino grosso ou outras partes do aparelho digestivo, provocando diarreia, dor abdominal, cólicas, fadiga e perda de peso.
As orientações alimentares federais aconselham os doentes a escolher alimentos saudáveis, a falar com um médico e a identificar os seus próprios desencadeantes, em vez de seguirem um único menu comprovado para a doença de Crohn.
“Temos estado muito limitados quanto ao tipo de informação alimentar que podemos fornecer aos doentes”, afirmou Sinha.
O que os participantes fizeram realmente
As pessoas incluídas no grupo da dieta seguiram um plano alimentar especial durante apenas cinco dias por mês. Nesses cinco dias, consumiram kits de refeições de baixo teor calórico, compostos por sopas, barras para lanchar e pequenas refeições embaladas, regressando depois à alimentação habitual no resto do mês.
Esta breve reinicialização foi relevante porque pedia aos doentes que alterassem a rotina apenas por pouco tempo, em vez de abandonarem grupos alimentares inteiros para sempre. Entretanto, o grupo de comparação continuou simplesmente a alimentar-se como habitualmente.
As mudanças mais acentuadas surgiram nos primeiros três meses. Um maior número de pessoas do grupo da dieta que imita o jejum registou melhoria dos sintomas, e muitas chegaram a uma fase em que a doença se tornou muito mais silenciosa do que anteriormente.
“Ficámos muito agradavelmente surpreendidos por a maioria dos doentes parecer beneficiar desta dieta”, disse Sinha. Estas melhorias sugeriam que poderia estar a ocorrer algo mais profundo no intestino do que um efeito placebo temporário.
O intestino também revelou alterações
A evidência mais forte não resultou apenas dos diários de sintomas. Os investigadores encontraram igualmente sinais de que a inflamação no interior dos intestinos tinha diminuído em muitas pessoas que seguiam a dieta, enquanto os níveis de inflamação tendiam a piorar no grupo de comparação.
Um indicador de alerta importante nas amostras de fezes caiu de forma marcada em alguns participantes, sugerindo que o próprio revestimento intestinal poderá ter ficado menos inflamado.
A distinção é relevante porque, por vezes, a doença de Crohn parece mais calma mesmo quando os danos continuam a progredir sem serem percecionados.
A inflamação no sangue seguiu uma tendência geral semelhante, mas não atingiu o limiar estatístico do estudo, pelo que o resultado nas fezes teve maior peso.
Como o sistema imunitário se tornou menos ativo
As amostras biológicas deram pistas sobre a razão pela qual uma mudança alimentar breve pode acalmar os sintomas.
Os investigadores observaram níveis inferiores de mediadores lipídicos - moléculas mensageiras derivadas de gordura que podem aumentar a inflamação - em vias associadas à irritação intestinal.
As células imunitárias do sangue também produziram menos sinais inflamatórios, o que indica que o sistema de defesa do organismo parecia menos propenso a continuar a chamar reforços para o intestino.
Os benefícios tiveram limites
Na prática, a doença de Crohn não segue um único padrão, e o ensaio refletiu essa variação. As pessoas cuja doença afetava o cólon, ou simultaneamente o intestino delgado e o cólon, responderam melhor do que aquelas com doença limitada ao intestino delgado.
Sem os ciclos mensais da dieta, os benefícios diminuíram após três meses, tornando a manutenção uma questão essencial para futuros ensaios.
Apenas seis participantes optaram por realizar exames intestinais com câmara no acompanhamento, o que deixou evidência direta insuficiente para comprovar uma cicatrização mais profunda. Não surgiram efeitos secundários graves no grupo da dieta, e o peso corporal manteve-se, em grande medida, estável.
O cansaço e as dores de cabeça foram frequentes durante os períodos de dieta de cinco dias, embora a maioria das pessoas tenha classificado estes efeitos secundários como ligeiros.
Apesar destes desconfortos, a maioria dos participantes manteve-se no programa, favorecida pelo facto de a dieta durar apenas cinco dias de cada vez e incluir refeições já preparadas.
Porque é necessária prudência
É difícil ocultar aos participantes os estudos sobre dietas, e este foi um estudo aberto, ou seja, os participantes sabiam se estavam a usar o plano especial de refeições.
Esse conhecimento pode influenciar a descrição dos sintomas, sobretudo em doença ligeira, na qual as variações diárias podem parecer grandes mesmo sem cicatrização profunda dos tecidos.
O estudo também apresentou um potencial conflito que merece ser referido: o coautor Valter Longo tinha ligações financeiras à L-Nutra, a empresa que produziu e vendeu os kits de refeições utilizados no ensaio. Por isso, outras equipas de investigação terão de reproduzir os resultados de forma independente antes de as conclusões conquistarem maior confiança.
Próximos passos
Uma dieta mensal curta proporcionou a muitos doentes com Crohn melhores pontuações de sintomas, menor inflamação nas fezes e sinais imunitários orientados na direção certa, sem uma reformulação permanente do menu.
Os próximos ensaios terão de avaliar uma utilização mais prolongada, doentes mais diversos, cicatrização confirmada por exames com câmara e a possibilidade de os médicos associarem a dieta às pessoas com maior probabilidade de responder.
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