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Água da torneira protege medicamentos gastro-resistentes

Pessoa a colocar pastilhas efervescentes em copos de água, com jarra e limão na mesa.

A maioria das pessoas pega no líquido que está mais à mão quando chega a altura de tomar um comprimido.

A escolha parece insignificante, quase sem importância. Contudo, uma nova investigação da Universidade Semmelweis indica que pode ter muito mais relevância do que se pensava.

No caso de determinados medicamentos envolvidos por uma camada protectora, a bebida errada pode destruir essa barreira antes de o comprimido sequer chegar ao estômago.

Alguns comprimidos usam uma armadura

Muitos medicamentos têm uma camada fina, denominada revestimento entérico ou gastro-resistente. Esta cobertura foi concebida para permanecer intacta no ambiente ácido do estômago e dissolver-se mais tarde, já no intestino.

Isto é importante porque o ácido gástrico degrada alguns princípios activos. Outros podem irritar o revestimento do estômago se forem libertados demasiado cedo; por isso, o revestimento mantém-nos selados até atravessarem essa zona em segurança.

Tratamentos para o refluxo, analgésicos anti-inflamatórios e produtos com enzimas digestivas recorrem frequentemente a este sistema.

Se a cobertura falhar prematuramente, o medicamento pode perder grande parte da sua eficácia.

A química da bebida

O revestimento não consegue identificar onde se encontra. Reage apenas à composição química do meio que o rodeia.

“Uma pequena partícula de medicamento não sabe se já está no intestino ou se continua dentro de um copo. Se o pH do ambiente circundante for semelhante, o revestimento pode começar a dissolver-se da mesma forma”, afirmou a Dra. Nikolett Kállai-Szabó, autora sénior do estudo.

“Os profissionais de saúde assumem, em geral, que os medicamentos são engolidos com água simples da torneira, mas isso nem sempre é evidente para os doentes actualmente, dada a grande variedade de águas minerais e medicinais disponível no mercado.”

Esta ideia orientou toda a experiência. Uma bebida com uma composição química semelhante à do intestino pode induzir o revestimento a abrir-se antes do tempo.

Testes a bebidas do dia a dia

A equipa analisou 22 bebidas consumidas habitualmente, registando a sua acidez e o teor de minerais.

Desse conjunto, sete foram avaliadas mais detalhadamente em condições laboratoriais.

A selecção incluiu várias águas minerais e medicinais, água corrente da torneira, água filtrada e sumo de maçã.

Cada líquido foi testado com partículas revestidas, para observar o que acontecia à película protectora.

Águas alcalinas danificaram os revestimentos gastro-resistentes

Os resultados apontaram claramente numa direcção. As águas engarrafadas alcalinas, com elevado teor de minerais, provocaram os maiores danos no revestimento.

A alcalinidade, por si só, não explicou todos os resultados. A elevada concentração de minerais e iões também acelerou a dissolução da película, um efeito particularmente intenso em algumas águas medicinais.

A rapidez foi o aspecto mais marcante. Em determinados casos, o revestimento começou a degradar-se após apenas cinco minutos de contacto.

Depois de 15 a 30 minutos de imersão, mais de 90 por cento do princípio activo já tinha sido libertado. Nessa altura, a protecção tinha desaparecido para todos os efeitos práticos.

Observar os revestimentos a desintegrar-se

Para confirmarem se o fenómeno ocorria com medicamentos reais, os investigadores abriram seis cápsulas comerciais e colocaram os pellets em 120 mililitros, cerca de meia chávena, de vários líquidos. Depois, acompanharam o processo.

Nas águas minerais, o líquido ficou turvo ao fim de cinco minutos, à medida que os revestimentos se desintegravam.

Com água da torneira, a maioria dos produtos manteve-se transparente durante toda a meia hora, um sinal visível de que a camada protectora permanecia intacta.

As bebidas ácidas tiveram um comportamento muito diferente. No sumo de maçã, quase não se verificou libertação precoce no início dos testes.

Nesse meio ligeiramente ácido, o revestimento manteve-se muito mais estável. O contraste face às águas alcalinas foi evidente e repetiu-se ao longo dos ensaios.

Faltam indicações nos rótulos dos medicamentos

A equipa analisou também as instruções oficiais de 103 medicamentos com revestimento entérico, documentos designados Resumos das Características do Medicamento. As orientações revelaram-se inconsistentes.

Em 42 casos, não era indicado qualquer líquido. Outros 31 referiam apenas “líquido”, enquanto 21 limitavam-se a mencionar “água”, sem especificar o tipo.

Apenas nove conjuntos de instruções forneciam uma indicação clara, orientando os doentes para sumo de maçã ou outra opção ligeiramente ácida. Na maioria dos produtos, cabe ao doente adivinhar.

Quem enfrenta maior risco

A preocupação é maior para quem não consegue engolir cápsulas inteiras. Algumas pessoas abrem a cápsula e misturam o conteúdo em água, iogurte ou puré de maçã.

Idosos, crianças pequenas e pessoas com dor de garganta temporária incluem-se frequentemente neste grupo. Muitas delas também bebem água mineral alcalina para aliviar a acidez no estômago, o que agrava o problema de timing.

“Na farmácia, verificamos regularmente que muitos doentes não têm consciência da importância do líquido com que tomam a medicação. Isto também pode afectar a eficácia pretendida do tratamento”, afirmou Adrienn Demeter, primeira autora do estudo.

Água da torneira mantém os medicamentos seguros

Os investigadores fazem questão de salientar que as águas minerais e medicinais não são prejudiciais por si mesmas. O problema está em combiná-las com este tipo específico de medicamento.

A água simples da torneira continua a ser a opção mais segura para acompanhar medicamentos gastro-resistentes. Quem ponderar abrir uma cápsula ou dividir um comprimido deve primeiro aconselhar-se com um farmacêutico ou médico.

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