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Estudo de Stanford revela como a tolerância oral evita alergias alimentares

Criança a comer torrada com manteiga de amendoim numa cozinha, com leite e frutos secos na mesa.

Como é que o organismo percebe que uma bolacha é alimento e não uma ameaça? Sempre que alguém faz uma refeição ou prova um lanche, o sistema imunitário fica perante uma decisão crucial.

Pode aceitar aquilo que entrou no corpo ou, pelo contrário, tratar a comida como algo perigoso. Na grande maioria das situações, o corpo escolhe bem e deixa os alimentos seguirem o seu caminho, em segurança, ao longo da digestão. A este mecanismo, os cientistas chamam tolerância oral.

Um novo estudo liderado por investigadores da Universidade de Stanford ajudou a clarificar como funciona esta tolerância. A equipa identificou pequenas partes de proteínas alimentares que enviam ao sistema imunitário um “sinal de calma”.

Este achado ajuda a explicar como o organismo reconhece muitos alimentos como seguros e pode orientar o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para as alergias alimentares.

Compreender a decisão do organismo

Os alimentos entram no corpo várias vezes por dia. Apesar desta exposição constante, o sistema imunitário quase sempre evita atacar o que comemos. Em vez disso, aprende a tolerar.

A equipa de investigação procurou perceber como o organismo toma a decisão de manter este equilíbrio - algo que permite uma digestão sem sobressaltos e reduz o risco de reacções nocivas.

A investigação foi conduzida por Dr. Jamie Blum, autora principal do estudo, que realizou o trabalho em Stanford e, mais tarde, passou a integrar o Instituto Salk.

Os investigadores identificaram fragmentos específicos de proteínas presentes nos alimentos que “falam” com as células imunitárias. Esses fragmentos ajudam as células do sistema imunitário a interpretar que determinados alimentos são inofensivos.

O papel das células T reguladoras

O sistema imunitário inclui vários tipos de células que actuam em conjunto para proteger o organismo. Entre elas existe um grupo particular cuja função é evitar ataques desnecessários. Essas células chamam-se células T reguladoras.

As células T reguladoras funcionam como mediadoras da paz: em vez de desencadearem inflamação, diminuem a activação do sistema imunitário. É esse efeito tranquilizador que permite ao corpo tolerar substâncias benignas, como os alimentos.

Os cientistas já sabiam que as células T reguladoras são essenciais para a tolerância oral. O que não estava claro era que proteínas alimentares, em concreto, desencadeavam esta resposta.

Compreender a reacção do organismo aos alimentos

Para encontrar essa peça em falta, a equipa de Stanford analisou como as células T reguladoras respondem a proteínas de origem alimentar. Os resultados ajudaram a revelar quais os sinais que orientam o sistema imunitário para a tolerância, em vez da rejeição.

“Como alguém interessado em ciência fundamental, há valor em compreender um processo imunitário normal juntamente com a patologia”, disse a Dr. Blum.

“Compreender como o sistema imunitário consegue, normalmente, ver uma proteína como segura pode levar a novas terapias para promover tolerância em pessoas com alergia.”

Porque acontecem alergias alimentares

As alergias alimentares surgem quando o sistema imunitário interpreta, por erro, um alimento como uma ameaça. Em vez de o aceitar, lança uma resposta defensiva.

Cerca de 6% das crianças e até 4% dos adultos têm alergias alimentares. Entre os desencadeantes mais comuns estão amendoins, ovos, soja e outros alimentos.

Durante uma reacção alérgica, o sistema imunitário identifica certas proteínas dos alimentos como prejudiciais. Anticorpos reconhecem essas proteínas e activam células imunitárias, como mastócitos e basófilos. Estas células libertam substâncias químicas que provocam inflamação e sintomas alérgicos.

Os cientistas já identificaram muitas proteínas capazes de desencadear alergias. No entanto, sabia-se muito menos sobre quais as proteínas que, pelo contrário, favorecem a tolerância.

Descobrir os sinais de tolerância

Para resolver este enigma, os investigadores começaram por uma estratégia simples. Estudaram ratinhos alimentados com uma dieta normal e, depois, examinaram as células T reguladoras para perceber que proteínas alimentares eram reconhecidas por essas células.

A análise revelou três pequenos fragmentos proteicos - chamados epítopos. Cada epítopo tinha origem num alimento vegetal diferente: um foi encontrado no milho, outro no trigo e o terceiro na soja.

Os três fragmentos pertenciam a proteínas de sementes. Como estas proteínas existem em grandes quantidades em muitos alimentos de origem vegetal, a descoberta sugere que o sistema imunitário aprende frequentemente a tolerar alimentos ao reconhecer estas proteínas vegetais comuns.

O milho foi o alimento que gerou a resposta mais forte das células T reguladoras. Isto é coerente com o facto de o milho raramente causar alergias. As alergias à soja são mais frequentes; por isso, a identificação de um epítopo da soja oferece uma pista particularmente interessante para investigação futura.

A equipa encontrou ainda um resultado inesperado: o receptor que reconhece o fragmento proteico da soja também consegue interagir com proteínas do sésamo.

Esta ligação pode ajudar a explicar porque, por vezes, a tolerância a um alimento se associa a tolerância a outro.

Onde estas células imunitárias actuam

O estudo também investigou onde as células T reguladoras desempenham a sua função. Para isso, foram usados ensaios com ratinhos e culturas celulares em laboratório.

Os resultados indicaram que muitas células T reguladoras vivem no intestino - precisamente no local por onde os alimentos entram e interagem com o organismo.

O próprio ambiente intestinal influencia o comportamento destas células. Num intestino saudável, as células T reguladoras ajudam a manter um estado calmo, com pouca inflamação. Quando surge inflamação, actuam para a reduzir e restabelecer o equilíbrio.

Esta capacidade de resposta flexível permite ao sistema imunitário ajustar-se ao que está a acontecer dentro do sistema digestivo.

Um futuro sem alergias alimentares?

A identificação destes epítopos alimentares abre novas possibilidades para tratar alergias. Já existe interesse em células T reguladoras como ferramenta promissora para futuras imunoterapias.

No futuro, poderá ser possível desenvolver células T reguladoras desenhadas para reconhecer proteínas específicas de determinados alimentos e, assim, promover tolerância. Tratamentos desse tipo poderiam reduzir reacções alérgicas - ou até preveni-las.

“A dieta é a nossa interacção mais íntima com o ambiente”, disse a Dr. Blum.

“Reconhecer correctamente os alimentos como seguros cria um ambiente anti-inflamatório que apoia a obtenção de nutrientes e previne alergias.”

“A nossa investigação faz avançar a compreensão científica dos principais alergénios alimentares e aponta-nos intervenções terapêuticas futuras que poderão redireccionar estados alérgicos e auto-imunes.”

Direcções para investigação futura

Os cientistas esperam agora aplicar estes resultados em humanos. A equipa já desenvolveu um reagente especial que ajuda a rastrear estas proteínas alimentares.

Com esta ferramenta, outros investigadores poderão explorar a tolerância oral com maior detalhe.

Cada refeição pode parecer simples, mas, nos bastidores, o sistema imunitário realiza uma tarefa extraordinária.

À medida que surgem novas descobertas, a ciência aproxima-se de compreender como o organismo aceita, de forma pacífica, os alimentos que sustentam a vida.

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