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Água com limão e cálculos renais: benefícios reais e riscos

Pessoa a espremer sumo de limão num copo de água numa cozinha com modelo de rim sobre a bancada.

Um ensaio de dois anos observou menos episódios repetidos de cálculos renais em pessoas que passaram a incluir sumo de limão fresco na sua rotina.

Os mesmos compostos do limão que ajudam a travar o crescimento de cristais também podem irritar dentes e estômagos quando a água com limão é tratada como algo totalmente inofensivo.

Cálculos renais e limões

Num ensaio com 203 participantes, os clínicos pediram a adultos com tendência para formar cálculos que acrescentassem cerca de 59 mL de sumo de limão, duas vezes por dia (o equivalente a aproximadamente duas onças fluidas).

Através dos registos da clínica, o nefrologista Giuseppe Remuzzi, do Instituto Mario Negri, em Itália, acompanhou as recidivas ao longo de dois anos.

A equipa de Remuzzi verificou que 21 em 100 pessoas no grupo suplementado voltaram a ter cálculos nesse período, face a 32 em 103 no grupo de controlo.

A adesão foi diminuindo: passou de 68% ao fim de um ano para 48% ao fim de dois anos, e as queixas gástricas foram mais frequentes.

O papel do citrato na urina

Os cálculos renais surgem quando, dia após dia, a urina transporta mais material cristalizável do que o organismo consegue manter dissolvido.

Os citrinos fornecem citrato, um sal natural que dificulta a aglomeração de cristais de cálcio, fazendo com que os cálculos cresçam mais lentamente.

Este benefício é mais relevante nos cálculos à base de cálcio e não assegura proteção para quem tem outros tipos de cálculos.

Mesmo em pessoas formadoras de cálculos, a água simples continuou a ter um papel determinante, porque um maior volume de urina dilui os resíduos que favorecem a formação de pedras.

Hidratação com um toque diferente

Muita gente começa a beber água com limão porque a água simples sabe a “nada”, e uma rodela fresca altera rapidamente o sabor.

Esse toque extra pode levar algumas pessoas a beberem mais ao longo do dia, o que também ajuda o trânsito digestivo a manter-se em movimento e as fezes a ficarem mais macias.

O sumo de limão tem pouca fibra, por isso não serve de alimento para o microbioma - a comunidade de microrganismos do intestino.

Os limões inteiros trazem essa fibra, mas a água com limão tende a apoiar a digestão sobretudo por facilitar que se atinjam os líquidos diários.

Vitamina C e pele

A água com limão acrescenta uma pequena quantidade de vitamina C ao dia, um nutriente importante para a pele e para a imunidade.

O organismo recorre à vitamina C para produzir colagénio, a proteína que contribui para formar a pele e para reparar feridas.

Ainda assim, frutas e legumes consumidos regularmente fornecem muito mais vitamina C, e guardar rodelas de limão pode reduzir esse teor.

Alegações sobre o peso exigem cautela

Muitas promessas de perda de peso baseiam-se em estudos que não testaram a água com limão em pessoas reais, em grande escala.

Em ratos, polifenóis da casca do limão - compostos vegetais que influenciam o comportamento das células - limitaram o aumento de gordura numa dieta rica em gordura.

A maioria das águas com limão feitas em casa contém muito menos casca do que essas dietas laboratoriais, pelo que o efeito pode não se aplicar da mesma forma.

Trocar refrigerantes por água com limão pode reduzir calorias, mas adicionar açúcar transforma a bebida noutro tipo de sobremesa.

Os mitos do “detox” não se sustentam

A conversa do “detox” persiste porque soa científica, mesmo quando o corpo já trata dos resíduos por si. O pH do sangue - uma medida da acidez nos fluidos - mantém-se perto de 7,35 a 7,45 em pessoas saudáveis.

Rins, fígado e pulmões ajustam a acidez do sangue e mantêm-na num intervalo apertado, de cerca de 7,3 a 7,5.

A água com limão pode alterar a acidez da urina, mas não consegue modificar a química do sangue o suficiente para “desintoxicar” ou queimar gordura.

A armadilha do esmalte dentário

O erro mais habitual é ir bebendo água com limão ao longo de horas, o que pode acelerar a erosão dentária - a perda de minerais do dente provocada por ácidos.

O ácido cítrico pode amolecer o esmalte, e escovar logo a seguir pode remover esse mineral fragilizado antes de voltar a endurecer.

Beber por palhinha, acabar o copo de uma vez e passar a boca por água simples ajudam a reduzir o tempo de contacto.

Se já tem dentes sensíveis ou cáries frequentes, um hábito diário com limão pode complicar os cuidados dentários.

Quando o estômago reage

A água com limão de manhã costuma incomodar mais quando o estômago, em jejum, já está sensível por refluxo ou úlceras.

Bebidas ácidas podem relaxar a válvula entre o estômago e a garganta, permitindo que o ácido suba e provoque sensação de ardor.

Pessoas com refluxo ácido, azia frequente ou irritação da bexiga tendem a sentir-se melhor com menos limão ou ao consumir com comida.

Uma rotina diária deve saber bem; dor persistente é um sinal de que não vale a pena insistir.

Hábitos seguros com água com limão

O limão fresco é mais importante do que pós “sofisticados”, porque o sumo engarrafado pode perder nutrientes e conter ácidos adicionais.

Lavar a fruta e espremer em casa ajuda a manter a casca fora da bebida, o que também reduz o amargor.

Para a maioria das pessoas, basta um copo com uma a duas rodelas; ultrapassar isso pode causar náuseas.

A água à temperatura ambiente costuma ser a mais confortável para a digestão, mas qualquer temperatura serve se ajudar a manter uma boa hidratação.

Benefícios que se confirmam

Há evidência sólida de que a água com limão pode ajudar a prevenir cálculos renais em algumas pessoas, além de oferecer pequenos ganhos nutricionais, sem “milagres”.

Proteger os dentes e respeitar estômagos sensíveis mantém o hábito com baixo risco, enquanto sintomas graves justificam aconselhamento médico.

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