O Agá, no Porto, cruza uma arquitetura e uma decoração marcadas por um brutalismo assumido com a cozinha arrojada de Hugo Pereira - um chef a ter debaixo de olho - numa carta em que os vegetais ocupam o centro do palco. No copo, a aposta recai em vinhos de pequenos produtores.
Um refúgio brutalista na Baixa do Porto
A narrativa do Agá arranca no momento em que se encontrou o seu abrigo: um piso abaixo do nível da rua, ainda assim inundado de luz natural, na Rua do Ateneu Comercial do Porto - a escassos passos do Abadia, uma referência histórica da restauração na Baixa.
Desde 2021, Armando e Paulo Caldas, irmãos e fundadores deste restaurante de estética minimalista e cozinha inventiva, andavam à procura do lugar certo. Ambos traziam um percurso ligado às artes, sem deixar de lado a experiência na hotelaria, e queriam um espaço que pudesse ser, ao mesmo tempo, sala de refeições e declaração de intenções.
Quando lá chegaram, recorda Armando, "o espaço estava completamente em bruto, e aquilo que nos fascinou foram as características arquitetónicas do local: o pé direito, a luminosidade. Remete-nos para um ambiente um pouco secreto. Ao entrar, deparamo-nos com isto: o granito, o betão, o ferro".
A partir daí, a matéria do sítio passou a ser parte da identidade. Foram precisamente esses materiais - e a forma como se impõem - que ajudaram a definir o Agá.
A afinidade com o brutalismo é assumida, "pela necessidade de construção rápida, de baixo custo, onde a estrutura também assume uma função estética".
Hugo Pereira e uma carta onde os vegetais são protagonistas
Faltava alinhar a cozinha com o espaço: encontrar um chef que combinasse com a ideia e com a estética. Foi assim que surgiu Hugo Pereira, com um percurso repartido entre Portugal e a Suíça e passagens por equipas como as do Antiqvvm e do Oculto, ambos de Vítor Matos, e do Vista, de João Oliveira.
Armando explica o encaixe: "Percebemos que tínhamos aqui alguém que pensava a cozinha da mesma forma que nós pensamos o espaço. A base dele é a cozinha portuguesa, mas procura, através da simplicidade dos elementos, dar-lhe uma técnica e abordagem pessoais e criativas. É um chef que está sempre à procurar de alterar alguma coisa, de inovar, de melhorar."
O restaurante abriu primeiro numa fase de arranque discreto (então com o nome Bruto), em agosto de 2025. Mais tarde, passou a chamar-se Agá. "Porquê? Por causa da letra H, igual à forma dos nossos pilares em ferro, que têm essa forma. É um nome que gera mais curiosidade."
Menu H5: cinco momentos e pratos de ousadia feliz
No Agá, os menus funcionam como o palco ideal para as ideias do chef. Há o H5, mais completo, com cinco momentos ao jantar, e um menu executivo, mais curto, ao almoço. Armando descreve Hugo como um chef "sempre com ideias a borbulhar", o que se traduz em pratos de perfil escultural e numa ousadia que sabe bem.
Do lado de Hugo Pereira, a leitura é clara: "Todo o conhecimento que ganhei nos últimos restaurantes por onde passei pode ser aplicado aqui, fundindo conceitos e receitas. Às vezes, de um lapso nasce uma ideia [para um prato], experimenta-se e dá-se seguimento."
Na versão atual, o H5 começa com brioche e manteiga de alga nori, reconfortantes e diretos. Segue-se uma entrada que se vai abrindo em camadas: tártaro de aipo com maçã verde e aneto, coroado por sorvete de aipo e maçã verde, com puré e uma telha de algo negro, assente numa base de sudachi - um conjunto onde os sabores se revelam aos poucos.
Depois, aparece um “delírio” mais leve e vegetal: mil-folhas de cenoura, puré de cenoura caramelizada, gel de gengibre, cenoura laminada, hortelã-pimenta e, a ligar tudo, uma redução de laranja e gengibre.
Como prato principal, corvina selada em manteiga, acompanhada por um arroz de salsa particularmente expressivo, cremoso e ácido, com feijão-verde, salsa desidratada, espuma de manteiga de ovelha e curcuma.
No final, a sobremesa fecha o menu com gelado de morango, namelaka de limão e calda de hibiscos, com telhas de leite e de hibiscos a enquadrar o conjunto.
Harmonização 5 Vinhos com pequenos produtores
Quem escolhe a Harmonização 5 Vinhos encontra uma sequência conduzida sobretudo por pequenos produtores: Tejo (Quinta da Alorna), Basto (Villa Seara), Dão (Kelman) e Bucelas (Morgado de Sta. Catherina) - todos brancos. A acompanhar a sobremesa, entra um moscatel denso (Horácio Simões). Um alinhamento ao serviço de pratos que são, de facto, ideias em ebulição.
Agá: morada, horários e preços
Agá
Rua do Ateneu Comercial do Porto, 26A, Porto
Tel.: 224 936 611
Web: instagram.com/aga_restaurante
Das 12h às 15h e das 19h às 22h30, de terça a sábado
Menu H5 (5 momentos): 60 euros; harmonização 5 vinhos, 45 euros; menu executivo de almoço, 17 euros (couvert, entrada, prato principal, sobremesa e café)
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