As amêijoas-surf do Atlântico - as mesmas que acabam em sopa de amêijoa ou em tiras de amêijoa frita - podem, em breve, passar a ser produzidas bem ao largo, em vez de dependerem apenas da apanha em populações selvagens.
Um novo estudo indica que criá-las em condições de mar aberto ao largo da costa da Nova Jérsia não só é viável como apresenta resultados surpreendentemente positivos.
O trabalho, coordenado pela cientista marinha Daphne Munroe, da Universidade Rutgers, avaliou se estas amêijoas conseguiriam crescer e sobreviver a quilómetros da costa, em condições reais.
O projecto teve financiamento da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e foi desenvolvido em colaboração com empresas de pesca comercial.
A criação de amêijoas ruma ao mar aberto
A aquacultura - ou seja, a produção de marisco e peixe - costuma realizar-se perto da costa, em baías, viveiros ou zonas abrigadas. Aí, o mar é mais calmo e a gestão do processo tende a ser mais simples.
No entanto, essas áreas também são muito disputadas: têm de ser partilhadas com embarcações de recreio, proprietários de casas na orla costeira e outros utilizadores. Além disso, a qualidade da água pode, por vezes, levantar problemas.
Foi neste contexto que Munroe e a sua equipa decidiram testar se levar a criação de amêijoas para águas mais profundas e mais limpas, ao largo, poderia reduzir parte dessas limitações. A questão essencial era directa: as amêijoas-surf do Atlântico aguentariam a vida em mar aberto?
Para obter uma resposta, os investigadores colocaram mais de 300.000 amêijoas juvenis em jaulas construídas especificamente para esse fim, instaladas a quilómetros da costa. O ensaio decorreu tanto na primavera como no outono, de forma a perceber como as condições sazonais poderiam influenciar os resultados.
“Estamos entre os primeiros a demonstrar que a criação de amêijoas em mar aberto pode mesmo funcionar”, afirmou Munroe. “É entusiasmante porque abre caminho a um novo tipo de negócio para os sectores agrícola e das pescas da Nova Jérsia.”
“Não fizemos isto num laboratório. Fizemos no mundo real, com pescadores reais. É isso que torna os resultados tão significativos.”
Proteger as amêijoas no oceano
As jaulas usadas no estudo foram pensadas para responder a dois obstáculos principais: a pressão dos predadores e a agitação do mar.
Na natureza, caranguejos e peixes atacam frequentemente amêijoas jovens; por isso, as estruturas funcionaram como barreira de protecção. Ao mesmo tempo, foram concebidas para resistir a ondulação forte e a períodos de mau tempo.
Houve ainda um benefício adicional. Ao manter as amêijoas ligeiramente elevadas em relação ao fundo marinho, as jaulas diminuíram a quantidade de areia e sedimentos que normalmente fica retida no interior das conchas. O resultado foi carne mais limpa.
O sistema permitiu que a água do oceano circulasse livremente através das jaulas, mantendo o bivalve resguardado. Na prática, isto traduziu-se em amêijoas em melhores condições e numa qualidade de produto superior.
O momento da instalação fez diferença
A época do ano revelou-se determinante. As amêijoas colocadas no mar na primavera cresceram mais depressa e apresentaram taxas de sobrevivência mais elevadas do que as instaladas no outono.
Em geral, a primavera trouxe um mar mais estável, com menos tempestades e menor movimentação de sedimentos - factores que provavelmente facilitaram tanto o desenvolvimento das amêijoas como o acompanhamento feito pela equipa.
Outra conclusão importante esteve relacionada com a densidade. As amêijoas mantidas em jaulas menos cheias tiveram melhor desempenho global.
Com mais espaço disponível, cresceram mais rapidamente e sobreviveram em maior proporção. Tal como acontece com muitas espécies criadas em aquacultura, estas amêijoas parecem beneficiar quando não estão excessivamente concentradas.
“Vimos que as amêijoas não só estavam a sobreviver, como também estavam a prosperar”, disse Munroe. “E a qualidade da carne foi excelente, com muito pouca areia. Isto é muito relevante para os consumidores e para a indústria.”
A criação em mar aberto traz uma nova oportunidade
As amêijoas-surf do Atlântico já representam uma componente importante das pescas comerciais da Nova Jérsia. Ainda assim, as populações selvagens podem variar, e a pressão da captura levanta sempre questões de sustentabilidade.
A produção em mar aberto pode oferecer um abastecimento mais estável, ao mesmo tempo que reduz a pressão sobre as populações naturais.
Também pode abrir novas oportunidades económicas. A aquacultura ao largo não concorre de forma tão directa com residentes na faixa costeira ou com actividades recreativas, e o oceano oferece muito mais espaço disponível.
Munroe reconhece que persistem desafios. O equipamento colocado ao largo tem de suportar condições meteorológicas duras durante longos períodos. Além disso, os processos de licenciamento e as exigências regulatórias podem ser complexos. Ainda assim, a investigadora vê potencial real.
“Isto pode ser vantajoso para todos”, afirmou. “Podemos produzir mais alimentos do mar de forma sustentável e apoiar empregos locais.”
Se a criação de amêijoas em mar aberto continuar a demonstrar viabilidade, poderá transformar a forma como as amêijoas-surf do Atlântico são produzidas na Nova Jérsia e, possivelmente, servir de modelo para outras regiões que pretendam aumentar a produção de alimentos do mar sem agravar a pressão sobre as pescarias selvagens.
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