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BMW M5 Touring: uma viagem insólita para ir buscar uma Brasilia Roma

Automóvel BMW Touring vermelho estacionado em chão de terra perto de edifício antigo.

Não bebo café. Há quem ache isto esquisito, mas é mesmo assim: nunca bebi e não tenciono começar. Não suporto o sabor. Por isso, quando um dos nossos editores sénior - uma figura ligeiramente peculiar aqui na Top Gear - me pediu para ir de Londres ao norte de Itália buscar uma máquina de café para o novo escritório, aceitei logo.

Mas só porque o veículo escolhido para esta aventura era um BMW M5 Touring novinho em folha. Tentem mandar-me fazer uma ida e volta de cerca de 3.200 km num Kia Carens para ir buscar um aparelho que produz uma bebida que eu não bebo, e a carta de demissão já estava em cima da mesa antes de alguém dizer o “C” de “Carens”. Aqui era diferente. Aqui, sim.

O M5 Touring entrega 400 cv mesmo antes de se tocar no botão de “potência”, aquele que liberta mais 107 cv. Se existe carro talhado para uma viagem longa e perfeitamente inútil (pelo menos para mim), é este. Aliás, inventámos um motivo para ir para longe só porque o M5 Touring existe. É absurdamente rápido e, ao mesmo tempo, prático.

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Imagens: Tom Salt

Este artigo foi publicado originalmente na Edição 172 da revista Top Gear (2008)

A missão: levar o BMW M5 Touring a Itália por uma máquina de café

Antes de arrancarmos, bastou um telefonema rápido para a BMW para confirmar se a carga cabia. Confirmada a logística, estava montado o cenário: íamos criar a máquina de café mais rápida do planeta - pelo menos no que toca a ser transportada por terra.

O plano era simples: ir pelo trajecto mais rápido, directo, “expresso”, se preferirem. Depois, no regresso, atravessar montanhas, sacudir a máquina no porta-bagagens e “espumar” um pouco a viagem.

Com tudo acertado, sigo por uma das excelentes auto-estradas com portagem francesas, a apontar para sul em direcção a Retorbido - uma pequena localidade italiana onde fica a fábrica da Brasilia, um dos maiores produtores de máquinas de café do país. A maior parte das marcas deste sector está concentrada perto de Milão, no coração industrial do norte de Itália, por uma razão pouco romântica: fabricar máquinas de café é, no fim de contas, um processo industrial.

Retorbido e a fábrica da Brasilia: menos romantismo, mais produção

A Brasilia, por si, é um edifício discreto e pouco inspirador. Ao entrar, sente-se o aroma do café, mas o resto é todo moderno; não há nada de antigo, artesanal ou rústico. Eu imaginava outro cenário: dois velhotes de chave de fendas na mão, cigarro ao canto da boca, a despejar espressos minúsculos entre uma afinação e outra na bancada, enquanto moldavam peças num torno.

Não se pode culpar a Brasilia por não corresponder ao meu cliché. Afinal, saem dali 30.000 máquinas profissionais por ano, puxadas também pela procura de gigantes como a Starbucks, entre outros.

Ainda assim, a minha vontade de “Itália à antiga” fica parcialmente satisfeita com a leveza latina perante formalidades. Entro na recepção, falo com a simpática senhora ao balcão, passo pelo armazém, troco gestos entusiasmados de mãos e cara com um tipo expansivo na zona de produção, assino um papel e pronto: uma Brasilia Roma passa a ser nossa.

Convém acrescentar que parte desta facilidade também se deve à Caffe Society, o nosso contacto no Reino Unido, que ajudou a fazer a ponte com a Brasilia.

Botões, modos e estradas: o M5 Touring só mostra tudo quando se insiste

Se a recolha foi fácil, a viagem também o foi - e aí o mérito é da BMW, criadora da máquina maior (e não menos especial) desta história. O M5 Touring tem a particular mania de esconder as suas capacidades durante demasiado tempo, em grande medida porque é preciso carregar em botões sem fim para o colocar a funcionar no modo verdadeiramente sério.

A caminho de Itália, por exemplo, só me lembrei de que existia um botão de “potência” quando já ia em Dijon. E atenção: o M5 não é lento no modo “normal” de 400 cv; mas, ao premir esse botão, a paisagem passa ainda mais depressa.

A caixa semi-automática consegue ser irritante e brilhante em doses iguais. O M5 é praticamente o único carro que não apetece deixar em automático em cidade, porque as passagens entram de forma demasiado brusca e com demasiada demora. Dá para acelerar as mudanças (sim, mais um botão), mas aí o carro fica a segurar rotações durante uma eternidade. Não é exactamente o tipo de serenidade que se procura.

O mais absurdo é que, sempre que se liga o carro, ele volta a cair nesse automático pouco inspirado. Passar para manual não tem ciência - é só empurrar a alavanca para a direita -, mas ter de repetir o ritual todas as vezes parece não fazer sentido.

Contornar a Suíça e descobrir os Alpes

Em matéria de coisas que não fazem sentido, apresento-vos a Suíça. A ideia inicial era subir por lá, apanhar estradas alpinas épicas (muito M5) e depois seguir para a Alemanha para auto-estradas sem limite de velocidade (muito M5). Até que o pessoal da Brasilia nos puxou para a realidade sobre o Mercado Comum Europeu: a Suíça não faz parte.

Precisávamos de um documento oficial e não havia tempo para o obter. Resultado: nada de Suíça. O regresso teve de ser redesenhado - norte de Itália, Alpes franceses, subida por Val d’Isère e Mulhouse, e só depois Alemanha, para testar o M5 tanto em auto-estradas rápidas como nas curvas apertadas de uma passagem alpina.

Sempre achei a Suíça pequena. Mas quando se tem de dar a volta, torna-se de repente um monstro e uma dor de cabeça monumental. Nestas alturas, a ideia de uma fronteira comum na UE começa a parecer bastante sensata.

Quando se entra numa estrada alpina, se mete o M5 Touring em manual e em Sport, o problema “Suíça” perde importância. Milão é uma das cidades mais vibrantes do mundo, mas os arredores são pouco estimulantes e demasiado planos. Assim que se começa a subir para os Alpes, a temperatura cai e as estradas ficam verdadeiramente interessantes.

A D902 começa por atravessar floresta - aceitável, mas a visibilidade não dá para antecipar grande coisa. Já acima da linha das árvores, a história muda. Há motards por todo o lado, uma espécie de encontro britânico de Honda Civic Type R, um conjunto improvável de 2CV e ainda uns Fiat 500 originais com modificações estranhas. Tudo sinais de que chegámos ao sítio certo.

Curiosamente, ao volante de um M5 sente-se mais camaradagem do que com outros BMW. Quem conduz estes carros tende a ser entusiasta e percebe logo que nós também somos, pelo que trazemos debaixo de nós. Deixo passar um motard; ele agradece e ainda me avisa de um obstáculo mais à frente. Os condutores de 2CV passam com um polegar levantado. É óptimo ser reconhecido por quem realmente percebe de carros - algo que, com este emblema, nem sempre acontece.

Configurar o modo “M” e levar o V10 ao seu habitat

Ao activar o modo “M”, o carro parece encaixar no seu lugar natural. No menu do iDrive dá para definir o que se quer desse modo: o ideal é ajustar para potência máxima, o programa de mudanças mais rápido, os bancos desportivos com apoio firme (aqueles que quase parecem dar um “murro” no rim em cada curva), mas mantendo a suspensão em “conforto”. Não vale a pena fazer a máquina de café tremer mais do que já treme.

Em estradas deste tipo, o M5 é simplesmente fantástico. Nesta fase da viagem está seco, por isso dá para andar depressa a sério. O peso extra da máquina no porta-bagagens não belisca nem a performance nem o comportamento.

O que mais marca a experiência é o ataque aos ouvidos. O visor head-up no modo “M” mostra um conta-rotações com código de cores, mas acima das 3.000 rpm o som musculado e agressivo do motor é tão expressivo que nem é preciso olhar: percebe-se logo onde estão as rotações.

Há um verdadeiro ambiente de competição, porque isto não soa a carro de estrada. Um V8 já é bom, mas este V10 é mais cru, mais focado. As passagens de caixa têm um tacto mecânico delicioso, com aquele corte momentâneo de rotação antes de a patilha confirmar a subida. E o “blip” automático nas reduções só reforça a vontade de continuar a carregar.

Este é um carro que pede condução intensa. Também impressiona a forma como se pode “saltar” mudanças: puxa-se a patilha três vezes e ele vai directo para essa relação, sem exigir o processo de puxar uma vez e esperar que o motor acompanhe, como num Ferrari 360 Challenge Stradale.

As curvas vão abrindo à nossa frente e é espantoso quanto ritmo se consegue manter. O nível de aderência é mesmo alto e traduz-se em confiança total. O M5 não prega sustos: tudo o que se faz ao volante gera uma resposta previsível.

A meteorologia nos Alpes e uma passagem a 2.764 metros

O problema desta região é a rapidez com que o tempo muda. Num minuto há sol forte; no seguinte, basta passar o topo de uma colina e aparece nevoeiro e chuva.

À medida que subimos (esta passagem chega aos 2.764 metros), a estrada estreita e a velocidade tem de cair. O piso aqui em cima já não é tão bom, mas o cenário continua a ser extraordinário: montanhas enormes de ambos os lados, os cumes carregados de nuvens pesadas, e dedos de neve ainda agarrados a certas manchas de relva. De vez em quando, surge uma marmota a espreitar, mas desaparece logo no buraco quando passamos.

E a queda ao lado da estrada também ajuda a trazer a velocidade de volta ao mundo real. Em alguns troços, os franceses capricharam na segurança ao colocar… uma espécie de cordão, como se fosse uma barreira imponente contra a queda do carro (e de uma máquina de café de grandes dimensões) para o vazio. Noutros, foram honestos e não colocaram absolutamente nada.

No meio disto tudo, a característica que mais me surpreende no M5 é o conforto. Sim, passámos grande parte do tempo com o carro em “conforto”, mas, mesmo assim, há menos trepidação nestas estradas do que eu esperava. E, nas auto-estradas alemãs, não há qualquer problema.

Autobahns: velocidade sem esforço, mesmo com chuva

Pode dizer-se que é nas autobahns que o M5 realmente encontra o seu palco - e, de facto, foi impressionante. A velocidade aparece sem esforço. Em alguns carros, uma tentativa de velocidade máxima é penosa porque demora uma eternidade até chegar aos 250 km/h; no M5, ele simplesmente puxa.

Nunca se sente que o motor vai perder fôlego ou começar a “arrastar” para chegar ao próximo patamar. Aparece uma pequena abertura no trânsito? Pé a fundo e vê-se o velocímetro a subir de forma suave e limpa.

Só que tentativas de velocidade máxima nunca são fáceis, ainda por cima numa autobahn movimentada e debaixo de chuva intensa. Mesmo assim, a maneira como o M5 se aproxima de velocidades que normalmente assustariam tira algum peso à situação.

Quando se acelera, a atenção fica presa à faixa em frente, à procura de qualquer perigo, com olhares ocasionais para o velocímetro no visor head-up. Mas acima dos 240 km/h deixa-se de confirmar a velocidade: o instinto de segurança toma conta e a concentração tem de ser total.

Afinal, estamos a fazer 1,6 km a cada 24 segundos. Os braços apertam o volante, os olhos quase não piscam, com medo de falhar algo que obrigue a travar a fundo. É excitante e aterrador - e, enquanto isso, uma máquina de café grande vai atrás, quieta, como lastro potencialmente letal.

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Com carga ou sem ela, este carro é incrivelmente estável a estas velocidades: sente-se um contacto permanente com a estrada. Não há aquela sensação de “flutuar”. E as curvas que surgem - porque, a este ritmo, até a mais pequena inflexão na autobahn passa a ser uma curva - não nos fazem suar frio.

Depois de quatro dias de condução forte e em condições muito diferentes, fiquei surpreendido com o M5. Quando a berlina foi lançada, não me conquistou assim tanto: tecnologia a mais, e muita dela pouco relevante para o Reino Unido, porque só se justifica a velocidades parvas. E continuo a achar que isso é verdade.

Mas num ataque transcontinental, misturado com troços alpinos mais vazios, revelou-se extremamente capaz. Chama-se Touring e honra o nome na perfeição.

Quanto à Brasilia, quando o novo escritório estiver pronto, será instalada com ligação fixa. Por agora, fica pousada numa secretária, inútil, a gozar com os viciados em cafeína da Top Gear. Mas, se querem mesmo um “abre-olhos”, deviam era dar uma volta num BMW M5 Touring. Não é preciso desculpa para o conduzir - até a viagem mais inútil ganha propósito. O carro existe, e isso chega.

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