A cafeína é a substância psicoactiva mais consumida em todo o mundo. Para a maioria das pessoas, chega num café quente de manhã - mais um gesto de rotina do que a sensação de estar a tomar uma “dose”.
Ainda assim, perceber o que décadas deste hábito fazem ao coração tem sido, de forma surpreendente, difícil. O café contém muito mais do que cafeína, o que torna complexo separar os efeitos de cada componente.
Uma nova declaração científica da American Heart Association (AHA) reuniu a evidência mais robusta disponível até agora.
“Those who enjoy consuming caffeinated coffee and tea should generally be reassured that doing so almost certainly does not increase their risk of cardiovascular disease and may in fact have some beneficial effects,” disse Gregory Marcus, que presidiu ao grupo de trabalho, ao Earth.com numa entrevista exclusiva.
O café moderado parece seguro
É do café que vem quase toda a cafeína consumida no dia a dia - e foi também nele que se concentrou grande parte dos estudos avaliados.
“Caffeine consumed in coffee is a key part of daily life for millions of people, and in our review of the most recent research, for most adults, intake of up to 400 mg of caffeine/day, the equivalent of up to 5 cups of caffeinated coffee per day without added sugars or fillers, is safe and does not increase cardiovascular risk,” afirmou Marcus.
“However, high doses of caffeine, such as those found in energy drinks including energy shots, may have harmful effects on the heart and should be avoided.”
O café afecta o coração de forma diferente
Após os primeiros goles, a cafeína espalha-se pelo organismo em cerca de uma hora. Em adultos saudáveis, o fígado elimina aproximadamente metade da dose em quatro a cinco horas.
A velocidade a que isto acontece depende dos genes, pelo que duas pessoas a beberem a mesma chávena podem sentir efeitos completamente distintos. Com o tempo, alguns desenvolvem tolerância; para outros, uma única porção já é suficiente para os deixar em sobressalto.
Em pequenas “subidas” de curto prazo, a cafeína pode elevar a tensão arterial, a frequência cardíaca e o estado de alerta. Nalguns casos, esse mesmo estímulo traduz-se em palpitações ou numa noite mal dormida.
A dose muda tudo
A relação entre cafeína e tensão arterial não é linear. Em pessoas que começam com valores saudáveis, consumir uma a três chávenas por dia foi associado a uma maior probabilidade de desenvolver hipertensão.
Já um consumo habitual mais elevado - acima de três chávenas - apontou para o sentido oposto. Ao longo do tempo, manter uma rotina estável com café pareceu estar ligado a uma redução da tensão arterial, e não a um aumento.
Uma ingestão isolada e alta comporta-se de outra forma. Uma dose única de 250 mg fez subir a tensão arterial de forma acentuada em homens que já tinham hipertensão.
Ou seja, não é apenas a quantidade que conta: o momento e o padrão de consumo pesam tanto como os miligramas. Um organismo habituado lida melhor com a cafeína; quem a consome raramente tende a reagir com mais intensidade.
O café pode proteger o coração
Quando é consumido regularmente e sem extras, o café preto volta a surgir no lado “positivo” do balanço. Numa revisão de 28 estudos de longo prazo, o risco de diabetes tipo 2 diminuiu entre 20% e 30% em pessoas que bebiam, em média, várias chávenas por dia.
O mesmo padrão apareceu para o AVC. Uma análise conjunta de 20 estudos encontrou o menor risco com três a quatro chávenas diárias, o que correspondeu a uma redução próxima de 21%.
A insuficiência cardíaca e as artérias obstruídas parecem seguir uma curva semelhante. O risco atinge o ponto mais baixo por volta de quatro chávenas por dia e começa a aumentar novamente quando o consumo sobe acima disso.
O ritmo cardíaco pode ir para os dois lados
“Many have been surprised by some of the counter-intuitive findings regarding abnormal heart rhythms, where strong and increasing evidence suggests that caffeinated coffee may reduce the risk of the most common cardiac arrhythmia, atrial fibrillation,” disse Marcus ao Earth.com.
“An important caveat though is that equally robust evidence suggests it may increase the frequency of a different abnormal heart rhythm, premature ventricular contractions or PVCs.”
Um ensaio aleatorizado quantificou a primeira parte desta observação. Entre pessoas com predisposição para fibrilhação auricular, manter o consumo de café com cafeína reduziu as recorrências em 39%.
Onde o quadro continua pouco claro
O colesterol acrescenta mais uma camada de complexidade. Uma substância chamada cafestol, presente no café não filtrado (como a prensa francesa e o café fervido), aumenta o tipo de colesterol considerado mais nocivo - embora um filtro de papel retenha a maior parte desse composto.
O que se adiciona à chávena também faz diferença. Açúcar, xaropes aromatizados e natas podem anular uma parte relevante do benefício que o café simples parece oferecer.
Além disso, grande parte do que sabemos vem de estudos observacionais - que acompanham grandes grupos ao longo de anos - e não de experiências controladas. Isso deixa em aberto a possibilidade de os consumidores habituais de café já serem, à partida, mais saudáveis.
As bebidas energéticas são diferentes
As bebidas energéticas e os “shots” de energia constituem uma categoria à parte. Um único shot pode concentrar três a quatro vezes mais cafeína do que um café normal, num volume muito pequeno.
Mesmo pessoas jovens e saudáveis, sem historial cardíaco, já apresentaram alterações do ritmo após consumirem apenas um.
“We do not know why energy drinks appear to be more harmful to cardiovascular health than coffee consumed in naturally occurring substances like coffee or tea. Importantly, there is substantially less research on energy drinks than these other products,” disse Marcus ao Earth.com.
“Potential explanations include the fact that these drinks tend to have higher doses of caffeine that are consumed in a much more concentrated form or that the accompanying components in energy drinks, such as simple sugars plus ingredients such as taurine, may harm the heart.”
Mais investigação sobre café e saúde do coração
A cafeína não entrou nas orientações alimentares da American Heart Association (AHA) para 2026, porque a evidência ainda não é suficientemente sólida para sustentar uma recomendação definitiva.
“We still have a lot to learn because the effects of coffee are complex and can be highly individualized among people. More randomized controlled trials are needed focused on caffeinated energy drinks and other popular products containing caffeine,” observou Marcus nos seus comentários ao Earth.com.
“The helpful research that has been done thus far is often investigator-initiated and tax payer-funded, providing a nice demonstration of the value of curiosity-based, unbiased original science.”
Não existe uma única quantidade segura
A declaração não estabelece uma regra universal. A forma como cada pessoa tolera a cafeína depende tanto da biologia individual como da dose.
Marcus afirmou que não existe uma estratégia “one-size-fits-all” para um consumo seguro de cafeína, já que a resposta varia muito consoante a idade, medicamentos, condições de saúde, genética e a rapidez com que o organismo a elimina.
A recomendação prática é observar como o próprio corpo reage e falar com um médico para perceber o que faz sentido em cada caso.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário